ADÍLIO, PARA A HISTÓRIA

image-4Adílio driblava. É uma das minhas primeiras memórias. Lá ia o Flamengo, imponente no arranque de Zico, incubando o time que viria a ser o maior de todos, e a bola caía nos pés de Adílio. O jogo mudava de tempo. A trajetória mais curta entre dois pontos não era mais uma reta. Era uma finta. Um fingir ir. Um traço ora seco, ora molhado, que desenhava outro caminho no campo e fazia a bola surgir outra vez para Zico em posição de arremate.

Adílio driblava os beques parrudos como driblara os obstáculos da vida na Cruzada São Sebastião. Era um drible de quem conhecia as fomes. A de comida e a de vitória. Adílio driblava o arco-íris, a saudade que se sentia de Geraldo e até o olhar que vinha da geral: o geraldino enxergava o camisa 8 e de repente não enxergava mais, esticava o pescoço e via Adílio em outro ponto, a bola branca como o sorriso, colada aos pés em ato de amor retribuído.

O Flamengo saiu do Rio e saiu de si. Foi ao Brasil para conquistá-lo: uma, duas, três vezes. Libertou a América do futebol sanguinolento que falava espanhol. Foi ao Japão para conquistar o mundo de fio a pavio. Fez isso com a majestade de Zico. Com os terremotos de Nunes. Com a plenitude de Júnior. Com tantos outros craques e virtudes, mas sempre com os dribles de Adílio, porque é o que Adílio fazia por nós: driblava.

imageadClaro, Adílio fazia mais. Gols aos montes. Gols decisivos. Não há como esquecer das finalíssimas com seu nome no placar, o petardo contra o Vasco em 1981, o gol sorrateiro contra o Liverpool, o vôo livre coroado com uma cabeçada certeira contra o Santos em 1983. E há duas Taças Rio e duas Guanabara conquistadas pelo escore mínimo, gol de Adílio.

Um dessas taças, a Guanabara de 1982, guarda o gol que melhor significa Adílio. Último minuto de jogo. Recebeu a bola de Zico na esquerda e grudou-a ao pé direito. Torto, foi conduzindo lentamente em direção à área, hipnotizando o beque cruzmaltino. No instante derradeiro aplicou-lhe um drible minimalista e deslizou a bola entre Mazarópi e a trave, o próprio chute um drible, porque Adílio era assim, driblava. Saiu comemorando com o braço erguido e a mão espalmada, como se abençoasse o delírio da multidão que o aplaudia, como fez tantas vezes, como faz agora na capa de seu livro.

Zico disse: “Como pode um técnico mandar marcar o Adílio homem a homem? Ele dribla até dentro de um elevador.” Por isso, mesmo que tantos sejam os atributos de Adílio, digo: Adílio driblava.

E driblando, elevou o Flamengo e entrou para a história.

 

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Título: Adílio, camisa 8 da Nação
Autor: Renato Zanata Arnos
Editora: iVentura
Formato: 16 x 23 cm
Número de páginas: 166

Lançamento: 13 de maio de 2013, a partir das 19h
Local: Livraria da Travessa – Ipanema
Endereço: Rua Visconde de Pirajá, 572, Ipanema, Rio de Janeiro, RJ

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