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    RETRATO EM PRETO E VERMELHO NA PAREDE DA MEMÓRIA

    Por em junho 26, 2013

    imageA primeira vez em que o vi, era uma figurinha. De um álbum estranho, que em vez de ser em formato de caderno, era uma gigantesca cartela, talvez dividida em 48 partes, cada parte era um clube, cada clube com os titulares e alguns reservas. Me lembro de ter até o América daqui do Rio, com Uchoa, Alex, Bráulio, Flecha, Ivo (o que depois adicionou o Morganti e virou técnico). E claro, lá no Flamengo, estavam Jaime, Renato (goleiro), Liminha, Arilson e, com um cabelo enorme, que depois lhe valeu o apelido “Capacete”, o Junior. Eram tempos em que jogador tinha um nome só. E o Leovegildo Lins Gama Junior, eu estranhava, em vez de ser Leovegildo ou Léo, era Junior, um nome que a princípio era bastante comum.

    Mas eu não havia entendido, criança ainda, que daquele momento em diante, para mim haveria um só Junior. O maior lateral-esquerdo que eu veria na minha vida inteira. Dali em diante, eu teria dificuldades em chamar qualquer outra pessoa de “Junior”. É como aquele seu amigo que se chama “Jesus”. Só em dizer o nome já surge uma carga que é desnecessária para a conversa.

    16591_408116122598701_1688734700_nE veio Jorge Curi. E veio Waldyr Amaral. Quando eles falavam o nome de Junior, havia uma sinestesia – eu ouvia o som e via o escuro das marquises do Maracanã com seus holofotes poucos e o cheiro de ansiedade que me vinha às narinas quando se subia a rampa e aquele cenário todo se descortinava diante dos olhos. Jorge Curi começou com o “Capacete”, e quando ele narrava os avanços de Junior, era quase um discurso de rei. E posso ser desmentido, mas o jeito que Waldyr Amaral tinha para descrever um cruzamento deve ter começado com o Leovegildo: “Calibra o centro, executa”. Seguido muitas vezes por “Entra Zico de cabeça e é gol”.

    154398_408096955933951_819211066_nNa infância, nós temos isso de o tempo passar muito mais devagar. Um ano, tempo que para nós, adultos, é quase um minuto, para uma criança de 10 anos representa um décimo de seu tempo de vida. Sim, eu sei que é óbvio, mas vale olhar para estes números para entender por que, no fim das contas, laterais, para mim, eram Toninho Baiano e Junior. E depois, claro, Leandro e Junior. Por muito e muito tempo. Hoje a gente sabe que foram alguns anos – ainda que muito mais tempo do que os jogadores de hoje, regidos por contratos, empresários e direitos federativos. O futebol não estava nas grandes emissoras com muita frequência, não havia recursos tecnológicos. E uma coisa da qual jamais esqueci: a gente não sabia se determinado jogo iria passar ou não. Algo inimaginável para os padrões de hoje, em que o espaço publicitário é vendido antecipadamente e a transmissão vira compromisso com os anunciantes, e não com o público.

    Mas eis que acaba a novela e entrava um slide da TV com uma voz em off: “Interrompemos nossa programação para informar que não será exibido o episódio de hoje de Chico City. Acompanhe agora a transmissão de Flamengo x São Paulo”. E cortava para o gramado cinza, a TV preto e branco, e o Junior parecia estar em vermelho e preto.

    04junho79 renato sá bota1x0flaUm dia, veio o Flamengo x Botafogo no qual bateríamos o recorde de 53 jogos invictos, que era do próprio Botafogo. Dois anos antes, o Botafogo havia perdido depois de 53 jogos em um jogo contra o Grêmio, com dois gols de Renato Sá. Os anos passaram e o algoz gremista veio para o Rio jogar no time de General Severiano.  Nos primeiros minutos de jogo, gol do Renato Sá. Foram quase 90 minutos de agonia, o Flamengo jogando como nunca, tentando o empate. Nos minutos finais, Junior recebeu uma bola dentro da área, sem tempo para ajeitar. Chutou por cima. E o jogo acabaria segundos depois. Eu estava vendo tudo dentro da sede da TV Tupi, que “captava” a imagem para fazer o videotape que seria exibido depois.

    Fiquei olhando para o Junior e a reação dele – a câmera logo se mexeu. Escrevi sobre isso em “Ser Flamengo”, um livro da Editora Folha Seca, do grande rubro-negro Rodrigo Ferrari. Eu vi o Junior sentir a dor da perda. A mesma que eu sentia naquela hora. Perdíamos a invencibilidade, justo para o detentor do recorde – depois de termos recusado amistosos fáceis para quebrar o recorde.

    Mas isso o Junior e o Flamengo sempre me ensinaram: não há grandes conquistas com caminhos fáceis. O Junior sabia a dimensão daquele gol perdido, daquela frustração. E ali, sozinho, naquele gramado cinzento, ele parecia ainda mais vermelho e preto.

    image2Depois disto, claro, o Flamengo ganhou tudo, junto com Junior. Inclusive o pentacampeonato brasileiro em 1992, depois que Junior deu show nos dois jogos finais contra o Botafogo – e lá no Maracanã, vendo ele acabar com Renato Gaúcho com uma sequencia de dribles, eu pensava naquele gol perdido em 1979, e sabia de certa forma que o Capacete estava fazendo Justiça com ele mesmo.

    E eu ali nas cadeiras azuis olhei para o gramado muito verde e vi um lateral-esquerdo em cinza e preto, como na antiga imagem de TV. Mas foi só uma visão momentânea, turvada pelas lágrimas que a memória sempre carrega.

    Junior está sempre em preto e vermelho.

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