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    NO FORNO QUENTE DA GÁVEA

    Por em outubro 24, 2013

    RESTOU UM LEVE CHEIRO DE ORÉGANO NO AR

    POR ANDRÉ PINTO (@andrepinarq)


    Árdua a tarefa de escrever sobre a reunião do Conselho Deliberativo do Clube que ocorreu na última terça-feira, 22/10/2013. Confesso alguma dificuldade para tal. Não sou conselheiro, não tive acesso à documentação em pauta, nem muito menos direito ao voto.

    AssembleiaMas tive a oportunidade de acompanhar cinco horas de reunião, até que desisti e fui para casa, exausto, sem saber o desfecho da votação. Porém, fiquei claramente decepcionado com o que vi.

    Minha decepção não se deu pelo resultado, que só chegou até mim ontem pela manhã, mas sim pela conduta geral que se viu no plenário da Gávea.

    Quero apenas compartilhar com vocês o sentimento de quem observou tudo, ou quase tudo, de fora. Peço, por favor, aos companheiros rubro-negros que são partidários da atual diretoria, ou da antiga, ou de qualquer outra, que não vejam com maus olhos este desabafo, pois que apenas tento analisar sem tomar partido de qualquer dos lados.

    Na terça-feira, levei umas boas horas para conseguir dormir, pensando e tentando entender o que vi. Cheguei à conclusão que se passou uma série de questões mal resolvidas e mal conduzidas por todas as partes.

    Apesar da dificuldade em ouvir o som da apresentação do relatório da auditoria, uma vez que me encontrava na ante-sala do plenário, deu para perceber três questões importantes que me chamaram atenção:

    (i) a falta de comprovativos de gastos de mais de 1,5 milhões de reais;
    (ii) a presença de duas notas fiscais sem validade; e
    (iii) o depoimento de uma funcionária que teria um imenso montante depositado em seu nome, sem saber disso.

    Outro destaque foi a apresentação incisiva das conclusões da comissão que acompanhou a auditoria. O relatório indicava o nome de alguns membros da diretoria passada e os enquadrava numa série de descumprimentos do Estatuto do Clube, para os quais obviamente haveria sanções pesadas (caso o relatório fosse aprovado e o inquérito formado, destaco).

    Durante toda a apresentação, e perdurando por toda a sessão, o que se viu foi um clima tenso e a presença de uma “tropa de choque”, claramente ligada à diretoria passada, disposta a criar todo o tipo de confusão, com gritos, vaias e intimidações físicas, culminando nas vias de fato no momento alto da noite.

    Foram cenas lamentáveis de se ver dentro do Flamengo. A postura truculenta observada no plenário deixou em mim uma certa tristeza de descobrir que, também nesse quesito, o Flamengo se assemelha muito à forma de fazer política no Brasil.

    guernica1Os citados nominalmente no relatório da comissão tiveram alguns minutos para expor seus argumentos. Entre notas fiscais sumidas, que apareceram naquele momento, discursos emocionados e acusações diversas, alguns pontos merecem destaque, entre eles o fato de que os citados só tiveram acesso ao relatório no dia da votação, o que restringiu a possibilidade destes apresentarem os documentos faltantes que foram mencionados pela auditoria (e que ensejaram o não fechamento das contas), a demonstração de algumas inconsistências importantes na auditoria e a crítica ao modo de condução do processo quanto à divulgação para a imprensa, com a consequente “condenação antecipada” dos citados, pela opinião pública.

    No meio de muita confusão, fomentada principalmente pelos apoiantes da diretoria anterior, entre caras feias, sorrisos debochados, indignação e tentativas de controlar a sessão, o que se viu foi um processo cheio de erros estratégicos, para um Clube que quer se tornar exemplo de administração.

    A definição no relatório dos enquadramentos de descumprimento do Estatuto e possíveis punições foi, para mim, um erro, assim como a demora na divulgação da conclusão da auditoria para os citados. Garantir a possibilidade para que os envolvidos entregassem os documentos faltantes seria uma importante contribuição para evitar as inconsistências da própria auditoria e do relatório da comissão.

    Pareceu-me que, na ânsia do uso político do relatório, a comissão deixou escapar o que realmente interessava que era aprovar ou não a auditoria para que, apenas depois, os fatos pudessem ser apurados, a fim de que, no futuro, fosse possível entender exatamente o que aconteceu de errado. Concluídas todas as possibilidades, que fossem punidos os responsáveis por improbidade ou qualquer outro descumprimento do Estatuto do Clube. Mas aquele não era o momento.

    Como foi conduzido o processo, a votação se tornou uma espécie de Fla x Flu, onde o Fluminense era sempre o outro lado.

    Não interessava o Flamengo, interessava os “do contra” e os “a favor” desta ou daquela diretoria, embora eu acredite que existissem conselheiros fora desta dicotomia.

    O resultado foi o arquivamento do processo que, portanto, e pelo que eu entendi, não será mais investigado.

    estrategia_xadrezHouve uma precipitação estratégica na tentativa de desconstrução política da diretoria anterior. Me parece que era mais importante para o Clube a investigação meticulosa a partir do statu quo definido pela auditoria. Penso que a vontade de adiantar punições aos envolvidos, acabou por punir o Clube e os sócios que não saberão se houve ou não desvios e se os citados cometeram improbidade administrativa. A má condução do processo os safou das sansões, se fosse o caso.

    Do forno quente que se tornou a Gávea na noite do dia 22 de Outubro de 2013, restou um leve cheiro de orégano no ar.

    De qualquer forma foi um momento importante para todos os lados. O grupo político da diretoria passada teve sua vitória no plenário que deve ser respeitada, a atual diretoria teve um grande aprendizado, sobretudo político, e eu conheci mais um pouco do que é o Flamengo.

    © FalandoFla © 2013

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    0 Comments

    1. Sidney Bastos

      25 de outubro de 2013 at 17:39

      Ser Flamengo de arquibancada é uma coisa, penetrar nas entranhas da política Rubro-Negra é outra completamente diferente. Tive algumas experiências (poucas, mas contundentes!) e fiquei enojado!
      Tenho certeza absoluta que a maioria dos sujeitos que brigam por trás dos panos por cargos e posições de destaque no Flamengo JAMAIS torceram ou sofreram no Maracanã, como os abnegados que gastam do próprio bolso para acompanham sua Paixão!
      Confesso que gostaria de não ter tido tais experiências, porque sempre tive o Flamengo como parte integrante da minha vida..
      Enfim, há os Torcedores e aqueles que buscam se locupletar do Clube…
      E que enchem a boca para se dizerem FLAMENGO…
      Triste…

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