MISSÃO CUMPRIDA


velezAinda nem bem amanhecera o dia direito e já estávamos reunidos. Ao todo, naquele começo de Domingo, éramos em torno de 25. Bem, se a gente contasse com Miguelzinho, com sua perna ainda quebrada e engessada após nossa última briga. Miguelzinho não seria de muita serventia dessa vez, mas sabe como é. Fez questão, não queria ficar de fora, um longo passado de porradaria ao nosso lado… Não tinha como barrar o cara.

Naquele momento ainda faltavam quase doze horas para o início do jogo. De qualquer forma a ansiedade era muita e ninguém ia conseguir ficar em casa. Muito menos dormir.

Todos com nossas camisas vermelhas. Camisas que eram quase um presságio. Vermelha também seria a cor das camisas dos nossos inimigos após a briga. Vermelho-sangue ficaria a arquibancada após a nossa devastação.

As horas que transcorreram até o momento de ir para o estádio foram as de sempre. Pouca comida, muita bebida, lembranças de brigas já passadas, contabilizar quantos de nós tinham morrido nos últimos anos, e o principal: contar e recontar o número de mortos que deixamos pelo caminho na longa história da nossa querida torcida.

Ah… Em algum momento falamos de futebol também. Pouca coisa, já que além de chato, o assunto não nos era muito familiar.

Chegara a hora.

vasco-atletico-pr-briga-torcida-joinville-brasileiro-0Por mais que nossa história fosse longa. Por mais que quase todos nós já tivéssemos ficha na polícia. Por mais que os melhores dentre nós já tivessem até sido presos, o clima era tenso. Seria, sem sombra de dúvida, a nossa missão mais ousada. De tão ousada era até quase-secreta. Os pouco menos de trinta foram escolhidos com muito cuidado. Não seria nada legal se alguém desse com a língua nos dentes.

O estádio. A revista da polícia. A subida da rampa. Tudo tinha cara de mais do mesmo. Ao mesmo tempo, tudo estava com um sabor especial dessa vez.

Lá na arquibancada mudou um pouco. Nada de ficar em pé e entoar nossas músicas. Nada de provocações. Sentamos separados e em silêncio. O bote tinha que ser perfeito. O ataque seria surpresa, relâmpago, cirúrgico, mortal, inesquecível.

Meia hora pro jogo.

Alguns de nós trocamos olhares nervosos algumas vezes. Não sei se é impressão minha, mas os olhares pareciam ter dupla função. Ajudar a passar o tempo era uma, a outra era buscar a confirmação de que nós realmente faríamos aquilo.

O juiz ergue o braço. Aquilo também teve dupla função. A bola rolou no campo na mesma hora que começamos o tumulto.

Nem olhamos muito. Cada um pegou o primeiro que viu pela frente e empurrou ou socou. Tumulto formado. Alguns de nós arremessávamos, no meio da coisa toda, pilhas no gramado. Os mais felizes arremessos acertaram alguns jogadores.

Com cuidado. Não parecíamos de forma alguma um bando. Multidão é um troço burro mesmo. Como previmos, não precisamos de mais que alguns segundos para gerar correria. A onda humana se chocou contra as grades.

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Um minuto depois já nem precisávamos fazer mais nada. Tinha objeto em campo, gente desmaiada perto da grade, gente pisoteada, pequenas poças de sangue. Como não agimos de forma conjunta, no final ninguém soube ao certo como tudo começou.

Já podíamos tirar aquelas camisas vermelhas nojentas. Nosso amor maior, o time amarelo, perdera o jogo daquela tarde em outro local. E quem se importa com isso? Com aquela confusão toda, pelo novo regulamento, os vermelhos perderiam pontos, mando de campo, os diabos.

Seríamos campeões com isso. Missão cumprida.

Gratos pela nova regra de combate à violência nos estádios. Que os clubes percam tudo, contanto que nenhum de nós seja preso. Que nem sempre foi.

 

CURTA

Marginal tem que ir preso. Quem tem que impedir ação de bandido é a polícia. Um clube não pode ser punido por causa de gangues. Se houver envolvimento/favorecimento entre diretoria e bandidos, que esses sejam punidos também. O combate não tem que ser contra as organizadas, e sim contra os bandidos que as usam como passaporte para a barbárie.

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