O pequeno Time – Parte II


Aos poucos foi reconhecendo cada um deles. Na sua cabeça confusa de pequeno, misturava algumas coisas. Sabia que eram pessoas que faziam parte do seu passado e do seu presente, mas não lembrava direito de o que cada um representava. oie_613360KQBClez7 Decidiu então, do alto de sua soberba e convincente de que era um nobre, ordenar que cada um viesse de uma vez ter com ele. Receava que conversando com todos ao mesmo tempo, acabasse se perdendo e demonstrando a fraqueza que no fundo sabia ter.

– E então veio o homem com a bela cartola: – Por qual motivo me segues, Cartola?

– Nenhum específico, majestade.  Só cumprindo o meu papel de protegê-lo

– De que? – De você mesmo, alteza – nesse momento o homem não conseguiu conter um riso de pilhéria.

– Como assim me proteger de mim? Isso não faz algum sentido.

– Com seu perdão, Sua Santidade – mais risos mal contidos – mas ultimamente suas histórias não fazem mesmo muito sentido. Mas se insiste em saber, sem mim já terias sucumbido diante de tanta merd… Perdão, diante de tanta imprudência que tomou por hábito cometer.

– E julgas então que se ainda existo é por sua causa, insolente?

– Receio que sim. Junto com os advogados e com aquele homem ali de branco, o que tem dinheiro caindo pelos bolsos, sou um dos responsáveis por suas quedas não te levarem tão para o fundo que seria impossível retornar à luz.

Satisfeito e até um pouco irritado, o pequeno Time mandou vir o homem de branco.

– Então também se julgas responsável pela minha própria existência?

– Mais ou menos – disse o homem, com certo rubor na face.

– Hmmm… Boa notícia. És então mais humilde que o outro?

– Mais ou menos – foi repetitivo, enquanto se abaixava para catar algumas notas que lhe escapuliram pelo bolso do jaleco.

– Explique melhor então.

– Bem, nem sempre estive na sua vida, mas depois que entrei, usando todo esse dinheiro que possuo, fiz algumas boas coisas. Posso dizer que só com esses vis papéis o trabalho dos advogados e do Cartola ali renda alguma coisa. Porém…

– Porém…

– Porém, um dia vou acabar indo embora para sempre.  Se com todo esse dinheiro as coisas já vêm se complicando um bocado, quando eu me for suas quedas serão vertiginosas e, diferente de hoje em dia, irreversíveis.

– E ainda julgas fazer bem para mim?

– Na verdade faço bem pra mim. Tu me cativaste e gosto de estar ao seu lado e ser útil, mesmo sabendo que posso aniquilar você quando não estiver mais presente.

Time chamou então o negro alto e de rosto branco como a neve.

Em seu pensar de menino, mais uma vez se viu divertido com aquela curiosa figura.

– E você meu nobre negro branco, a que vem? Acaso também é um dos meus protetores?

O negro ria e seus dentes eram ainda mais brancos que a pele do seu rosto, o que deu a Time pela primeira vez a sensação de que…

Estou sonhando… É isso… Isso é só um sonho. Por isso essa sensação esquisita de conhecer essas pessoas e ainda assim não ter muita certeza de quem são. Um sonho.Como sou bobo. É claro que só podia ser uma peça pregada pelo meu cérebro. Sou um soberano, porque precisaria de um homem com uma cartola branca e outro com os bolsos cheios de dinheiro para continuar existindo? Ah, ah, ah, essa é muit…

Em silêncio chegou e em silêncio continuava. E Pequeno Time fez três, quatro perguntas, e nada de obter resposta daquele curioso homem.

– Ô amizade… – gritou o homem saracoteante com a roupa rubro-negra – não adianta falar mais alto e dar faniquito que o camarada aí é mudo. Emudeceu de vergonha por um acontecimento em sua vida.

– E quem é você, insolente e pululante figura – perguntou se sentindo inseguro.

– Tu já se ligou que a bagaça aqui… Aliás, que a sua vida é uma fantasia? Incluindo isso tudo aqui? – Já tinha pensado nisso. – Pois é… Eu sou seu sonho. Pode chamar de pesadelo se quiser. Meu nome é Flamengo.

(continua)

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