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    Por em março 24, 2014

    oie_24192431369QP2eEEra um jogo sem a menor importância. Domingo chuvoso, campeonato decidido e time reserva em campo. Ninguém poderia supor que seria o jogo mais importante da minha vida.

    O Flamengo sempre foi a minha maior paixão e o caminho natural dos meu filhos, ao nascerem, era herdar esse bom costume do pai. Mas pra quem é tão fanático quanto eu e leva o assunto tão a sério, sempre fica uma pontinha de incerteza e temor que algum tio ou avô possa atrapalhar a trilha correta das coisas.

    Desde pequenos, Guilherme e Isabel me vêem cantando os gritos da torcida e o hino do Flamengo. Chegaram a esboçar um movimento de mãos e um “dá-lhe, dá-lhe, dá-lhe ô”, mas era muito pouco para mim. Queria mais e, como já tinham completado três anos, esperei um jogo tranqüilo para levá-los à nossa segunda casa, o Maracanã.

    E o jogo ideal chegou. No carro, a caminho do Maraca, as crianças dormiram, ainda não entendendo que estavam prestes a conhecer um novo mundo. Obedecendo a um item da lista de cuidados passada pela mãe, levei Gui e Bel para a arquibancada leste inferior. Os primeiros olhares para o campo ainda acompanhavam uma sonolência que se transformou em choro quando o Flamengo abriu o placar e a torcida gritou. Surge um primeiro pedido para voltar pra casa. O susto foi maior que qualquer entendimento do que estava acontecendo. Mas serviu para acordar de vez a criançada. O segundo gol ainda causou estranheza, mas no terceiro já estava tudo certo.

    É claro que correr nos corredores do Maracanã e comer pipoca com suco durante o intervalo foi muito divertido (talvez até mais que a partida em si). É claro também, que o pai que aqui escreve pouco conseguiu ver os lances do jogo, tantas eram as perguntas sobre a “televisão grande”, o moço atrás do gol, o cara que chuta a bola lá no alto, entre outras. O segundo tempo, por exemplo, foi um intenso corre-corre entre as cadeiras, com o acréscimo de mais uma pequena rubro-negra, que se juntou aos meus filhos naquela divertida brincadeira. Divertida, obviamente, para eles.

    O mais importante é que, conforme os gols do tempo final iam saindo, já eram discretamente comemorados pelos pequenos. Era a essência rubro-negra lhes enchendo a alma, como o ar nos preenche os pulmões. Era a transformação começando a acontecer. Era meu sonho se tornando realidade. Era o cumprimento de uma importante etapa no meu papel de pai.

    Apito final, jogo terminado, caminhamos calmamente para o carro. Ao atravessar a rua, com as crianças no colo, puxo novamente aquele “dá-lhe, dá-lhe, dá-lhe ô” já costumeiro. Sou acompanhado pelos pequenos, dessa vez com mais empolgação. A música vai até o final, com alguns pequenos deslizes nos versos, é verdade, mas com o movimento das mãos, como a torcida. Na verdade, agora eles já são da Nação.

    Já vivi inúmeras decisões, vitórias e títulos. Mas o dia 23 de março de 2014, um domingo que era pra ser comum, é o dia da minha maior conquista: o dia que as duas pessoas mais importantes da minha vida partilharam da minha grande paixão: o Flamengo.

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