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“INDEFENSÁVEL – O goleiro Bruno e a história da morte de Eliza Samudio”

Por em junho 2, 2014

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O trocadilho do nome do livro – INDEFENSÁVEL – é um achado. Vence pela simplicidade, de somar uma expressão comum aos chutes impossíveis de serem defendidos (e que Bruno defendia) ao verdadeiro status do ex-capitão do Flamengo: Bruno é indefensável, é o que nos diz o livro de Paulo Carvalho, Leslie Leitão e Paula Sarapu, três repórteres com passagem pelos mais diversos órgãos de imprensa.

Três jornalistas destes que não são vistos na redação – estão sempre na rua, buscando, checando, apurando, perturbando o juízo dos que precisam lidar com eles.

Na verdade, em tempos de “manifestações” e Mídias Ninjas, acabamos esquecendo desta função primordial da imprensa: fiscalizar, cobrar, apurar. Nos perdemos em ranços para todos os lados, e muitos sucumbem às tentações de “censura” ou “regulamentação” ou mesmo acusam repórteres de golpistas ou aliados do “sistema”.

“Indefensável” é um livro corajoso, que mostra acima de tudo que toda essa ladainha contra a Imprensa é balela pura. Não existe isso de “imprensa vendida” ou “imprensa independente”. Existe a imprensa boa: a que checa, a que apura, a que investiga e checa duas vezes. O resto é apenas imprensa mediana.

De certa maneira, defendo o mesmo raciocínio para os árbitros de futebol: sempre prefiro acreditar que o que temos mesmo é uma arbitragem ruim, incapaz, e não que haja conspirações envolvendo o FBI, o Vaticano e a COBRAF.

Dito isto, sobre o livro “Indefensável”, devo dizer que antes de mais nada é para estômagos fortes. Não há escatalogia ou detalhes escabrosos – mas há sordidez, canalhice, insanidade em doses cavalares. “Indefensável” mostra que Bruno et caterva se aliavam para a prática de crimes. Descreve como Eliza Samudio foi seqüestrada e obrigada a tomar abortivos (sem sucesso). Mostra como um importante personagem do processo criminal quase foi morto em um atentado (informação inédita). Revela bastidores do Flamengo campeão de 2009, mostra a atuação firme do diretor de futebol Marcos Braz em diversos momentos, indo contra Bruno e seus amigos, negociando com os departamentos prejudicados pela divisão do prêmio.

E nos mostra mais uma vez o universo do sujeito de origem humilde mas que de repente se vê em um mundo onde as cifras têm três dígitos: mulheres, orgias, bebida, carros possantes, celebridades, pagodes, funk, promiscuidade com criminosos. Uma falência moral, uma ausência de parâmetros e a total desvalorização da vida. A cena em que Bruno se despede de Eliza, sendo levada – ainda sem o saber – para a morte é para estômagos fortes. “Vá com Deus”, disse ele.

Os jornalistas apuraram com esmero, trazem para o leitor riqueza de detalhes, reproduzem toda a atmosfera daqueles dias. Não é um livro como “A Sangue Frio”, de Truman Capote, em que há uma narrativa que flerta com a ficção e que segue uma ordem cronológica inversa. É muito mais uma grande reportagem, com muitas aspas, que embora aqui e ali tenha seus momentos de lentidão no ritmo (como nas partes do tribunal), no geral impressiona pela ousadia.

“Indefensável” acaba com qualquer chance de relativização da morte – como naqueles clássicos exemplos em que muitas pessoas dizem “colheu o  que plantou”. Não. Eliza Samudio é revelada como ser humano com fraquezas, com limitações, de origem muito humilde, que tentou de tudo para melhorar de vida – até perdê-la de uma forma estúpida.

É um livro que talvez ajude a asfaltar esse caminho tortuoso – esta trilha pela qual muitos passam, mas que infelizmente sempre volta a se fechar, por questões editoriais, econômicas e até por causa dos novos modelos de jornalismo que começam a se implantar, o tal jornalismo 3.0. “Indefensável” é jornalismo em estado bruto, impossível de ser lapidado, indigesto como deve ser, e de facílima leitura.

Os jornalistas tiveram esse mérito: o de entender que havia uma grande história, por mais trágica que fosse, para ser contada. Um atleta que poderia ser o goleiro da Seleção Brasileira nesta Copa (na minha opinião, seria) mas que por causa de péssimas decisões tomadas vai ver a competição da cadeia.

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