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Amor incondicional sob algumas condições

Por em agosto 8, 2014
Por Marcella Mello e André Pinto

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O conceito de voluntariado está cada vez mais presente na rotina do torcedor apaixonado. A aproximação entre clube e torcida tem sido fomentada pelo primeiro, através do estímulo à doação incondicional, de ideias, trabalho ou dinheiro. Recursos supostamente direcionados ao que seria uma causa social, embora destine-se à uma instituição que mistura seu papel sócio-esportivo à sua condição empresarial.

Este quadro divide opiniões e faz emergir questões que podem parecer básicas, mas que no entanto são fundamentais para consolidar uma boa relação entre quem apóia e quem é apoiado: Como estão sendo gastos os recursos como um todo? Qual o nível de transparência confiável de quem pede o apoio incondicional? Quais são os resultados efetivos no quadro geral da instituição? Meu dinheiro disponibilizado pela paixão está indo pelo ralo? Minha condição de apoiador me faz sentir orgulho ou a sensação é de enxugar gelo?

São perguntas que não podem ser deixadas de lado se existe intenção de manter o nível de confiança entre torcida e clube.

Desde as eleições, em dezembro de 2012, o Flamengo vive o que temos considerado como uma nova era para o clube. As promessas de um novo modelo de gestão e de profissionalização encheram de esperanças milhões de rubro-negros, sócios ou não. No entanto, passado 1 ano e 8 meses dessa nova gestão, tais promessas ainda não se consolidaram, reduzindo em muito o nível de confiança de quem acreditou e apoiou (incondicionalmente) as mudanças prometidas.

Tal quadro é agravado quando observa-se a falta de resultados no principal pilar de sustentação do clube: o futebol. Resultados ruins, dificuldade de contratações e a aparente falta de rumo, fazem emergir toda a fragilidade que parece existir em todo o organograma e que reflete-se, principalmente, na dificuldade de geração de novas receitas.

Esse problema latente e propagandeado pela própria diretoria, move torcedores, sócios ou não, a reconhecer e adotar o caminho do voluntariado como único possível dentro do quadro de desespero estabelecido a partir da falta de resultados do futebol. Vendo o objeto de seu amor incondicional definhar, surge como iniciativa, de fora para dentro, ações espontâneas de contribuição para amortizar dívidas e fazer um Flamengo melhor. Uma ideia simples concebida fora do clube, como outras apresentadas com menos sorte à diretoria, encontrou uma maneira de pagar dívidas, e cooperar com o clube nessa gestão.

É importante destacar a origem desse movimento de fora para dentro, que reflete também a dificuldade no nível de profissionalização prometida. Fica cada vez mais evidente aos olhos do torcedor que aderiu ao novo conceito, que o retorno do seu apoio é cada vez menos efetivo. Somam-se políticas de ingressos altos, pacote de benefícios pouco representativos e, principalmente, os maus resultados do futebol dentro de campo.

Nesse quadro de clara dificuldade de profissionalização do clube, de políticas desastradas no sentido da relação com o torcedor e de maus resultados, é preciso avaliar e repensar o modelo de mão única adotado até aqui, e as peças que os sustentam.

Transparência, eficiência e resultados são fundamentais para que exista a confiança que move as ações de voluntariado criadas em parceria com o torcedor, transformado também em investidor, que apóia por conta da paixão, mas tendo a expectativa do retorno.

Não há amor que resista ao mau uso de idéias, trabalho ou recursos doados. É preciso estabelecer uma via de mão dupla nesse relacionamento que se estabelece, agora, num outro patamar, onde o apoio será necessariamente proporcional aos resultados em campo e fora dele.

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