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Ser ou não ser (um clube cidadão), eis a questão

Por em agosto 24, 2014
por João Anzanello (@joaoanzanello)

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Ser ou não ser (um clube-cidadão), eis a questão. Ultimamente temos nos confrontado constantemente com esse posicionamento, muito em parte pela nova política de austeridade financeira e contenção de gastos para pagamento de dívidas e tributos, que a atual diretoria do Flamengo tem adotado, do que propriamente por vontade da sua torcida. Afinal, como ser um “clube-cidadão” e um “clube-campeão” ao mesmo tempo, quando os componentes mais importantes desta complexa engrenagem (recursos) estão comprometidos.

A dificuldade de se conjugar desempenho esportivo com paixão, assim como responsabilidade com respeito aos compromissos financeiros, em um equilíbrio que satisfaça os dois lados da balança, sempre foi motivo de preocupação e dor de cabeça para os dirigentes rubro-negros. Há que se atentar ao passado do clube, sem deixar de olhar para o futuro. Não se trata de defender ou atacar qualquer um dos lados, nomes e/ou gestões pregressas, mas precisamos ser mais assertivos e responsáveis ao discutir e analisar a sensibilidade deste tema, sem nos esquecermos da dificuldade de gerenciar um orçamento bastante comprometido. Enquanto isso, “segue o jogo”… Mas se os três pontos não vierem na próxima rodada, a “chapa vai esquentar”!

Como bem lembrado pelo nosso presidente Bandeira de Mello, em recente entrevista ao programa Arena SporTV, “qualquer medida irresponsável que você tome em um momento, em um curto prazo, ela vai se refletir mais na frente”. O que isso significa? Na teoria, eu quero mais é que meu time ganhe, contrate bons jogadores e vença seus jogos para conquistar os títulos. Na prática, para isso acontecer, contratos terão que ser bem redigidos, salários terão que ser honrados pontualmente, direitos de imagem terão que ser pagos, etc. A verdade é que, se houvesse uma fórmula simples e fácil, uma das maiores receitas do futebol brasileiro, hoje, daria conta do recado tranquilamente.

Não podemos mais cometer “loucuras”. A célebre frase do velho Vampeta já não cabe mais na nossa realidade. O erro de hoje custará muito caro amanhã. E os juros só tendem a crescer… Os resultados podem ser imediatos dentro de campo, mas fora dele, certamente os fins não justificarão os meios adotados. Em longo prazo, a irresponsabilidade financeira se torna insustentável.

Os mesmos torcedores que hoje aplaudem ao ver seu clube se tornando um “clube-cidadão”, que paga os impostos em dia e procura honrar todos os seus compromissos, serão os mesmos que amanhã estarão bradando incessantemente por reforços de peso no elenco profissional. Vencer, vencer, vencer! Certo, mas até que ponto? Sem lógica, somente com a emoção, ou equilibrando coerência, paixão e razão? Certo, se não temos dinheiro, vamos aproveitar a “prata da casa”! Ah, não estamos mais revelando jogadores de qualidade? Limpa na base! Mas e a base? Ah, a base, historicamente formadora de atletas rubro-negros de estirpe, também padece. Culpa exclusivamente dos profissionais que lá estão? Logicamente que não, pois a engrenagem do clube passa pela receita gerada, seja ela em qual setor for, incluindo-se aí o da formação de jovens talentos.

Mas, afinal, como equilibrar o respeito e a reputação no mercado, com os compromissos financeiros e éticos, que tanto sufocam o Flamengo? Como conciliar os investimentos, sempre de retorno impreciso, em jogadores consagrados e caros? Temos tempo para arriscar? Podemos errar (ainda) mais? O futuro chegou. A realidade é agora e as contas não param de estacionar na Gávea. E então, ficaremos à mercê de orçamentos mambembes, ou nos pautaremos em um planejamento concreto, que possa ser cumprido responsavelmente? Continuaremos a fazer chacota pela constante preocupação em manter nossas Certidões Negativas de Débitos (CNDs), tão importantes para nos mantermos financeiramente viáveis, ou vamos saber administrar nossos anseios desportivos dentro daquilo que podemos honrar?

A questão é delicada e a discussão é longa, mas acima de tudo, podemos (e devemos) militar por um panorama organizacional sólido e efetivo. O passado nos lesou, a conta chegou, mas o sonho não acabou. Anos de desmandos, processos mal feitos, acordos não cumpridos e dívidas arrastadas. Eles não entram em campo, não correm, não marcam, não atacam e tampouco defendem. Pelo contrário, eles nos impedem de montar times condizentes com a grandeza do clube que amamos.

Por outro lado, a postura responsável que temos tido para cumprir compromissos e encerrar com passivos de décadas e décadas, muito em breve, também será responsável pelo futuro de glórias que a nossa história sempre pregou. Ser ou não ser (um clube-cidadão), eis a questão.

 

*João Paulo Anzanello é Rubro-Negro, redator publicitário
Sócios Pelo Flamengo

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