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O gênio da literatura que torcia pelo Flamengo

Por em abril 3, 2015

Quais são as maiores mentiras repetidas no mundo do futebol? Uma das mais recorrentes, sempre pronta a pender do beiço dos torcedores mal informados, é que o Flamengo, “time de analfabeto”, jamais contou, entre suas fileiras, com notáveis escritores e intelectuais – os grandes autores seriam todos Botafogo, ou time que o valha. Balela purinha, que no futebol talvez só perca para falácias como “o Vasco é o time da virada”, “a Portuguesa mereceu cair” ou “Rapaz, hoje o jogo do Fogão vai encher!”.

oie_2142639khMJ158cOutro dia entrei por descuido num blog, e o camarada, engravatado até na foto do perfil, lamentava que “no campo da literatura o Flamengo realmente não parecia fazer frente aos rivais”, e tome chororô por Drummond ser vascaíno, Armando Nogueira ser alvinegro, Nelson Rodrigues ser tricolor. O tal gravatinha estava enganado. Há pelo menos 11 cobras, monstros sagrados da literatura nacional que foram ou são tarados pelo Flamengo como você e eu. Olha a lista, xerifão Wallace, e depois aponte o seu favorito:

Ary Barroso no gol; Manuel Bandeira, João do Rio, Dias Gomes e Ruy Castro; Ruffato, Antonio Callado, Mário Filho e Rubem Braga, Ziraldo e José Lins do Rego.

Só o poeta enorme Bandeira já esculhamba a concorrência, mas é certo que temos um time forte e equilibrado, capaz de representar com dignidade outros bons jornalistas, tribuneiros, músicos, poetas, letristas, também notáveis guardiões da língua portuguesa. Analfabetos, pois sim.

Quem seria o camisa dez dessa seleção rubro-negra, na sua opinião? Poucos mereceriam a camisa de Zico com tanta propriedade como o best-seller Rubem Braga (1913–1990), para muitos o maior cronista brasileiro desde Machado de Assis. Braga, a exemplo de João Ubaldo (cruzmaltino) e Sérgio Porto (pó-de-arroz), também batia uma bolinha nos gramados e praias, e certa vez num jornal do Espírito Santo foi elogiado como “valoroso meia-direita”. Como se não bastasse, o escritor viveu por linhas tortas um episódio glorioso: foi salvo da prisão pelo Clube de Regatas do Flamengo.

flamengo literatura rubem braga

Em “Rubem Braga: um cigano fazendeiro do ar”, seu biógrafo Marco Antonio de Carvalho recorda a aventura, ocorrida em 1936, quando o jornalista de 23 anos tentava deixar o Rio e ir trabalhar em paz em Minas, longe da vista e do porrete de Getúlio Vargas: “Procurado pela polícia, num momento em que, para viajar, era necessário portar um salvo-conduto expedido pelo governo, Rubem só atravessou a Mantiqueira com uma carteirinha de jogador reserva do Flamengo – e mesmo assim porque o guarda que o interrogou era rubro-negro doente e não queria criar nenhum problema para um companheiro de Domingos da Guia e Leônidas da Silva, recentemente contratados pelo clube da Gávea”.

Drible de gênio, foi ou não foi? E Rubem também marcava seus golaços, como prova este trecho da crônica “A vingança de uma Teixeira”: “Nossa primeira bola de borracha era branca e pequena; um dia, entretanto, apareceu um menino com uma bola maior, de várias cores, belíssima, uma grande bola que seus pais haviam trazido do Rio de Janeiro. Um deslumbramento; dava até pena de chutar. Admiramo-la em silêncio; ela passou de mão em mão; jamais nenhum de nós tinha visto coisa tão linda”.

“Admiramo-la”, carilhos! E você aí perdendo tempo com o Carioca da Ferj em vez de ir pegar um bom livro na estante.

Por Marcelo Dunlop

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