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    Rejeição ao Abel? Por que?

    Diário de quem viveu uma tragédia

    Por em junho 17, 2016

    Antes de mais nada, para o torcedor do Flamengo, Abel Braga deveria remeter ao antológico gol de Rondinelli, o Deus da Raça, que pulou mais alto que o grandalhão e talentoso zagueiro vascaíno e fez o gol do Carioca que rendeu ao Mais Querido o primeiro do terceiro tri estadual. Não pretendo esmiuçar, e nem vou, a carreira do hoje técnico campeão por vários times por onde passou, inclusive do Mundo, pelo Internacional. Seja antes de 2004, seja depois de 2004.

    917069_677590912382928_1469112981_nAinda na função de Assessor Jurídico do extinto FlaFutebol, ao lado do Maestro Junior, Diretor Técnico (função hoje exercida pelo também ídolo Mozer), de João Henrique Areias, que cuidava do Marketing exclusivamente do futebol do Flamengo (quem não lembra da campanha ‘Eu Amo Fla’?), e José Maria Sobrinho, então Diretor Executivo da pasta, acompanhei a trajetória de Abel Braga como técnico do Flamengo durante 44 partidas. Desde sua estreia em jogo treino contra o CFZ, até seu último jogo como comandante na derrota para o Juventude, Abel obteve 19 vitórias, 12 empates e 13 derrotas. O Flamengo nessas 44 partidas fez 70 gols e levou 56.

    Nesses 7 meses de Flamengo, há que se observar alguns fatores, vejamos: o clube vinha de uma crise institucional sem precedentes em seus, até então, 109 anos. Para se ter uma ideia, o Flamengo no início de 2004, sequer tinha talão de cheques. Sem pagar impostos, sofria com uma ação civil pública promovida melo Ministério Público Federal, a qual impedia que seu patrocinador único, a Petrobras, lhe pagasse. O clube vivia endividado com seus atletas (três meses, em média). Lembro que minha primeira medida como jurídico do futebol, foi elaborar a rescisão do contrato de Edilson (o Capetinha), simplesmente porque ao final das férias, em janeiro, não apareceu no clube, nem deu satisfação. Afinal, o Rubro-Negro lhe devia. E não para por aí. Eram tantos que nem vale citar.

    Abel Braga, por sua característica de comandante, foi o escolhido como técnico. Muitos jogadores foram dispensados, e os melhores (poucos) foram mantidos, dentre eles, Julio Cesar, Rafael Carioca, Fabiano Eller, Fabio Baiano e Felipe. Outros que já haviam subido aos profissionais em 2003 foram mantidos. Anderson, Andrezinho, André Bahia, Diogo, Henrique, Gauchinho, Robson, Jonatas, Ibson e Jean, talvez até hoje sejam os mais conhecidos. Três jogadores mais experientes foram repatriados (Athirson, Júnior Baiano e Zinho), Da Silva (volante), em boa fase no Vasco, foi contratado, e mais uma penca de apostas que não tinham muitas oportunidades em seus ex-clubes, como Roger Guerreiro, lateral esquerdo que veio do Corinthians, e outros que eram destaques em times fora do eixo Rio-SP, como o já falecido Reginaldo Araújo (Coritiba), Rafael Ledesma (Juventude), Douglas Silva (Atlético-PR), e o até então desconhecido Negreiros, que veio do Londrina com fama de artilheiro.

    Esse era o cenário do Flamengo, versão 2004, que tinha como time base em um primeiro momento: Júlio Cesar, Rafael, Henrique, Fabiano Eller, Roger, Robson, Ibson (Anderson Luiz), Zinho, Felipe, Jean (Rafael Gaúcho) e Diogo (Andrezinho). Esse mesmo time, que sob o comando de Abel Braga, conquistou a Taça Guanabara daquele ano, contra o Fluminense, gols de Fabiano Eller, Jean e Roger (o gol do desempate).

    Nesse mesmo campeonato, o Vasco levou a Taça Rio, comandado por Geninho, flagrado pelas câmeras em um treino na véspera de decisão contra o Flamengo, mandando seus jogadores baterem em Felipe, o camisa 10 do Rubro-Negro. Pois, nas duas partidas contra seu maior rival o Flamengo levou a melhor. 2 x 1 no primeiro jogo (Rafael e Fabiano Eller), e 3 x 1 (os 3 de Jean).

    Sim. Com esse elenco o Flamengo foi campeão estadual (ainda o estadual comemorado pelo torcedor). Paralelamente, já se iniciava a Copa do Brasil de 2004, com as partidas diante do CRB-AL e Tupi-MG. Logo depois Santa Cruz-PE, Grêmio, Vitória, e os fatídicos jogos contra o Santo André, que havia deixado o Palmeiras pelo meio do caminho.

    Lembro bem do dia em que eu, Junior e Sobrinho fomos ao sorteio dos mandos de campo na CBF. O Flamengo levou a melhor ao mandar o segundo jogo no Maracanã. Sem casa, o Santo André foi obrigado a jogar no Palestra Itália colorido de vermelho e preto.

    Mas vamos voltar ao dia 09/06. Vitória x Flamengo no Barradão. O Flamengo levou a melhor ao ganhar de 1 a 0 (Fabiano Eller). Zinho, então o experiente do meio de campo que sabia cadenciar o jogo, sofreu uma entrada no tornozelo e acabou substituído por Jean. No jogo de volta, sem Zinho, o Flamengo venceu com gols de Ibson e Nene (contra).

    A tensão no ar parecia ter o peso de uma tonelada. Não para os jogadores, que já viam a final contra o desconhecido Santo André como vitória garantida e troféu para a galeria. Seria o Bi que o Flamengo perdeu para o Cruzeiro em 2003. A tensão estava nos semblantes de Abel e Junior, que enxergavam na possível ausência de Zinho a eventual perda daquele caneco por excesso de confiança.

    Zinho começou o tratamento no dia seguinte (10/06). Eram sessões de fisioterapia, exercícios e corridas em torno do gramado da Gávea. Até o primeiro jogo contra o Santo André, o Flamengo já havia jogado três vezes. Vitória pela Copa do Brasil e Corinthians e Atlético-PR pelo Brasileiro que já tinha começado. Na partida do Palestra, Zinho sequer foi relacionado. O que parecia fácil, começou a se tornar tragédia anunciada. 2 a 2 no jogo de ida, com gols de Roger e seu substituto Athirson (que não estava 100% fisicamente).

    Na saída do Palestra, pude ver os semblantes de Abel e Junior que ocupavam as duas primeiras cadeiras do ônibus da delegação que saía do estádio. Péssimo pressentimento, afinal, mesmo com o empate, o Flamengo jogaria no Maracanã por 3 resultados que garantiriam o Bi da Copa do Brasil. Vitória simples, e os empates em 0 a 0, ou 1 a 1. O placar de 2 a 2 levaria a partida final para os pênaltis. Assim como qualquer rubro-negro normal, jogadores, diretores e vice-presidentes do Clube já contavam como certa a conquista do caneco, ao ponto de marcar no final de semana que separava as duas partidas finais, a foto oficial de Campeão Carioca, o que foi imediatamente rechaçado por Junior no meio do clima de oba-oba, com cartolas desfilando com as respectivas faixas de campeão.

    A luta pela recuperação de Zinho era incessante. Gelo, ultra-som, ondas curtas, corridas, tentativas de piques, exercícios, até que chegou a terça-feira que culminou no veto definitivo do meio campo pelo departamento médico do Flamengo.

    O clima de vitória era contagiante. Afinal, onde seria a comemoração? No Marimbás ou no Plataforma? Afinal, o Flamengo jogava para ser campeão garantido em três possíveis resultados. Até eu estava no clima de já ganhou. Entretanto, dois caras não estavam com a feição da tranquilidade: Junior e Abel Braga. Eles sabiam que Zinho seria o fiel da balança naquele time até então muito jovem. Sabiam que Zinho seria o jogador que cadenciaria a partida em eventual momento de aperto. O técnico não tinha muitas opções de escalação. Aquela tipica situação onde não vale a pena olhar muito para o banco de reservas. Mas não existia alternativa. Julio Cesar, Reginaldo Araújo, André Bahia, Fabiano Eller, Roger, Da Silva, Douglas Silva, Robson, Ibson, Felipe e Jean foi a melhor escalação que se poderia conceber daquele elenco.

    O primeiro tempo terminou com o Flamengo Bi Campeão. 0 a 0 no placar. Rafael Carioca já não era mais do Flamengo, Athirson (que entrou no segundo tempo) ainda não inspirava confiança no aspecto físico, Jonatas, outro que entrou no segundo tempo, até então era o reserva do reserva. E Negreiros foi a tentativa de se trocar um volante por um atacante, no segundo tempo, quando tudo já parecia estar (e estava) perdido.

    A tragédia todos conhecem. O Santo André marcou seu primeiro gol no começo do segundo tempo, e ali se justificavam os semblantes de preocupação de Junior e Abel. Zinho não estava em campo para acalmar a garotada. Felipe tentava resolver o jogo sozinho, com sua habilidade, mas o nervosismo o atrapalhava. E veio o segundo gol. Fim da festa que nunca aconteceu. O Flamengo foi para o tudo ou nada em vão. Elvis, do time do ABC paulista, era o herói da partida. Maracanã calado. Torcida perplexa. Minha pior experiência, e fazendo parte daquela estrutura que já era um esboço de profissionalização e autonomia do futebol do Mais Querido.

    Quinta-feira chegou, e com ela o maior dos silêncios. Não tinha explicação. Ou melhor, tinha. Nós sabíamos, mas seria choro de perdedor. Aquele Bi da Copa do Brasil não veio pelo excesso de confiança dos jogadores por conta da imaturidade. Aquele Bi não veio por culpa de uma escalação errada. Aquele Bi não veio porque não era para vir. Coisas que só acontecem no futebol. Coisas que só acontecem, acho, a cada passagem do cometa Halley, ou a cada nascimento de um novo Zico.

    Abel Braga, na minha opinião, é sim, um bom técnico. Ultrapassado? Não sei. Antigo? Diria eu, da velha guarda. Campeão? Multicampeão! Foi mal nas arábias? Dizem eles que nada entendem de futebol…

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