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E por falar em saudade: Zico

Por em janeiro 18, 2017

Nunca fui afeito a simplificações. Reducionismos. Pior: rótulos. Normalmente eles escondem ignorância.

Nosso futebol é emblemático nesse sentido. Rotula-se com a maior facilidade. A geração atual recebeu todas as etiquetas possíveis até se chegar a classificação mais razoável: faltava mesmo era um técnico com um mínimo de conhecimento tático e atualização, depois de seis anos com Dunga em duas passagens, Felipão…Até isso acontecer, foram “sem talento, fracos, amarelões, psicologicamente frágeis, sem comprometimento…” e o que mais você imaginar. Muita gente boa inacreditavelmente embarcou nesse “safra ruim” ou no “sem comprometimento”, que devia fazer técnicos estrangeiros morrerem de rir de nossas incompetências.

Houve um outro rótulo que tentaram pespegar nessa geração: de que eram um bando de inconsequentes, alienados do mundo e sem sentimentos por pessoas ou instituições. Que não tinham o menor respeito pelos que passaram e construíram a estrada antes deles. A alienação eventual não é um problema exclusivo deles. Os demais carimbos não se confirmam quando se conhece um ou outro ali e se pode travar algumas conversas.

Conto um episódio pessoal para atestar o que falo. Trocava ideias com um dos grandes expoentes da geração atual. Respeitado no mundo inteiro por seu talento, bem acima da média. Um craque. E sou comedido para usar a palavra craque. Omito o nome por não ter autorização para tornar o papo público, embora seja edificante para o interlocutor, por mostrar exatamente tudo ao contrário do que muitas vezes classificam.

O tal craque tinha enorme ânsia para saber sobre alguns jogadores do passado. Contou que procura muitas coisas no You Tube mas não acha coisas proporcionais ao que falam. Que são incríveis mas sabe que muito mais coisa aconteceu. Queria saber mais especificamente sobre Zico. Cresceu ouvindo o pai e o avô falarem coisas inacreditáveis sobre o rubro-negro. Vivia procurando. Queria conversar, entender como era o estilo, o tamanho de Zico.

Entre tantas perguntas que fazia, lá pelas tantas soltou com a maior pureza da alma, em tom do maior elogio possível: “Era tipo assim o Kaká? Dá pra falar que eram a mesma coisa?”, afirmou, com o sarrafo que media Kaká muito lá em cima, porque afinal, cresceu vendo o meia sendo até o melhor do mundo. Portanto, se na cabeça dele o parâmetro era Kaká, é porque tinha Zico, pelas histórias que ouvia, no mais alto conceito.

Minha resposta não foi legal. Daquele tipo que depois você fica pensando: “fui mal nessa, fui desnecessariamente grosseiro”. E volta pra casa com aquilo na cabeça. Mas foi sem maldade, juro. Porque ao ouvir a comparação, que tinha sido feita na maior pureza e na melhor das intenções, soltei uma sonora gargalhada e naquele tom horrível de quem acha que o outro está falando a maior das ignorâncias, soltei um “você tá maluco”.

Refeito um pouco do susto e da resposta acima do tom para alguém que conversava numa boa, tentei remendar um pouco e consertar. “Não há termos de comparação. Zico foi muito mais do que Kaká. Jogava muito mais, é algo tão despropositado que não dá pra explicar”. O craque estava meio pasmo com meu relato. E perguntava: “Que isso, mais do que o Kaká como você tá falando? Muito mais? Tem certeza”? Expliquei que a prateleira de Zico no futebol era aquela logo ali, abaixo do Pelé, no andar de Messi, Maradona…

É claro que tinha e creio que ninguém que viu os dois jogarem tem qualquer dúvida. Mas não precisava ter falado daquele jeito. A dúvida era natural. Basta se botar no lugar. É como eu perguntar para alguém mais velho se Zizinho jogou mais do que o Renato Augusto. Claro que jogou e o mais velho irá ficar naturalmente perplexo. Mas minha dúvida é razoável, diante da falta de referência.

Tendo ao menos tentado amenizar minha inexplicável grosseria e mais do que isso, tendo trocado boas ideias e reminiscências sobre Zico, diante de alguém atento todo o tempo e com grande admiração, caio em profunda nostalgia logo depois da conversa. Muito mais do que isso: uma saudade imensa. Lembrar de Zico jogando me trouxe tanta coisa boa de volta.

Lembranças são assim. Puxa-se uma boa e outras tantas vem na esteira. E como muitos defendem e concordo, lembranças assim nos tocam especialmente porque nos trazem dias que não voltam mais, trazem a imensa saudade da juventude. Trazem mais do que isso. Só recorrendo a riqueza de poeta maior de Chico para descrever o que vem nessas memórias. Sintetizado no título da canção, “Flor da idade. “Ai, a primeira festa, a primeira fresta, o primeiro amor… Ai, o primeiro copo, o primeiro corpo, o primeiro amor… Ai, a primeira dama, o primeiro drama, o primeiro amor”.

E ali, naquele turbilhão de memória, do namoro no portão do prédio, do doce de sonho de valsa que ela fazia, das descobertas, dos fins de tarde na praia, da resenha na praça quando não era preciso pensar nas contas, das primeiras lutas, do sonho em um dia ver um pouco mais de igualdade florescendo, de tanta coisa, naquele turbilhão, as tardes de domingo vieram com tanta força…As tarde de domingo com Zico. As tardes de domingo de Zico. A alegria dividida com o pai que era maior quando era com gol de Zico, aquele grito compartido com o desconhecido no velho Maracanã…Aqueles 36 dias de 81…

Sobre eles, um dia o grande jornalista Rodrigo Araújo me contou que tudo tinha acontecido em 36 dias. Nunca tinha atentado para isso, nunca saiu da minha cabeça. Pensava tanto num livro. O nome seria “Os 36 melhores dias de nossas vidas”. Eram os estertores daquela longa noite suja de 21 anos pela qual passamos, a noite dos facínoras, e aqueles recitais de Zico pareciam anunciar um novo tempo, pareciam dizer que o sonho tava ali, chegando. Como sempre, fui postergando o livro. Queria tanto ter roubado a ideia do Rodrigo. Foi melhor não ter sido assim. A reportagem-documentário que ele fez sobre esses 36 dias para o Esporte Espetacular foi uma das coisas mais emocionantes da TV brasileira nos últimos tempos. Que bom ter perdido essa.

Uma saudade que vem junto com a memória do velho Maraca e do nojo por esse crime abjeto que cometeram e seguem cometendo. Mas vem com tanta coisa boa.

A profissão de tantos dissabores mas de tanta coisa maravilhosa tem também dessas coisas: um dia poder falar ao ídolo com mais intimidade sobre tudo aquilo da memória. Por uma série de razões, optei por manter-me longe dos personagens. Muito menos pelos manuais de ética feito por homens de gel no cabelo que nunca fizeram uma matéria, e que de dia pregam ética e de noite destroçam a nobreza do ofício, mas por opção de vida. Com Zico pude abrir mão por alguns momentos. E dar feliz natal no dia 3 de março.

Amante da poesia e da música, especialmente a brasileira, ainda que não consiga discernir um Lá de um Dó, me emociono quase como numa antiga tarde de domingo com algumas canções, alguns versos. Tanta coisa bonita que temos…Uma gente que fez isso tudo há de cumprir esse destino de ser feliz. Nas noites de quinta, tenho mais esse privilégio na vida, de estar no meio de alguns dos maiores músicos desse país, sob a batuta de uma das mais belas figuras do mundo, Alfredinho, o Neném. E me emociono sempre com tanta poesia, tanto acorde bonito. Quando acaba tudo, fica sempre um petit-comité (acho que não era pra contar…) e cantamos as preferidas. “Embora o pão seja caro e a liberdade pequena” como disse o poeta, esse privilégio me concede ouvir “de grátis” alguns monstros como o Tiago Prata, vulgo Pratinha, e o Maurício Massunaga, parelha que roda alguma no mundo pode ter melhor no sete cordas, Manuela Oiticica, vulga Manu da Cuíca marcando o ritmo, a Simone Franco cantando, o Cid Benjamin, figura ímpar e imensa em nossa história, jornalista de mão cheia mas que cisma em achar que pode tocar no meio das feras, tudo isso pra três ou quatro privilegiados. Sempre peço as coisas que mais gosto, as que mais me emocionam.

Entre os versos de Pixinguinha, Chico, Aldir, Paulinho, Cartola, Noel, sempre me intimido um pouco para pedir e confessar o que mais me emociona. Mas um dia desses vou me encher de coragem e pedir: “Toca por favor: E agora como é que eu fico nas tardes de domingo, sem Zico no Maracanã”.

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NOTA: esse texto, publicado aqui na íntegra, foi feito originalmente para o livro “Zico, o Rei do Maracanã”, de Paulo Sérgio de Souza, que será lançado pela Editora Datagol no próximo dia 30, às 19h, no Flamengo, com a presença de Zico. Um trabalho insano de pesquisa de Paulo Sérgio de Souza, com a ficha de todos os jogos que Zico jogou no Maracanã e o gráfico de 160 gols. A convite do autor, alguns jornalistas como eu, Mauro Cezar Pereira e Mauro Betting demos nossos testemunhos sobre Zico.

Lúcio de Castro – SPORTLIGHT

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