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    Flamengo e seu novo mindset: por quê é saudável que Vinícius Jr. permaneça

    Por em março 18, 2017
    vinicius jr flamengo

    Já conhecemos este filme: revelação do Flamengo se destaca na Copinha ou no estadual de juniores, empresários anunciam que grandes clubes europeus estão de olho, preços disparam – e o final para o jogador nem sempre é o mais feliz.

    A maioria deles, de origem humilde, passa a lidar com números financeiros totalmente fora de sua realidade. Surgem os carrões, os colares, a marra, a cobertura de sites de celebridades, e, mais recentemente, o Instagram e o Snapchat. O futebol? Se dilui um pouco e exige dos verdadeiros talentos – como o caso do Vinícius Jr. – um empenho físico cada vez maior.

    vinícius jr flamengo

    O ex-zagueiro Mauro Galvão, em debate na Fox, foi certeiro: a preocupação maior deve ser exatamente com a formação do caráter de Vinícius. O deslumbre, os vídeos do Neymar (imagine um ídolo como Neymar falando com você aos 17 anos), todo um contexto que o garoto passará a viver, um verdadeiro sonho com cartão de crédito de limite altíssimo.

    O que pode salvar Vinícius Jr, é exatamente o Flamengo

    Explico nas linhas que se seguem.

    Há um dito que circula há uns anos nas redes sociais, sem autor identificado, segundo o qual “tempos difíceis criam homens fortes; homens fortes criam tempos mais fáceis; tempos mais fáceis criam homens molengas; homens molengas tornam os tempos mais difíceis”.

    É uma espécie de espiral em torno do qual a História parece girar. A coisa mais próxima disto com autor é uma frase do escritor americano O.S. Marden, “fazemos o mundo em que vivemos e modelamos o nosso próprio ambiente”. É possível que a frase-espiral tenha sido criada por um leitor deste americano morto em 1924.

    Voltemos, não a 1924, mas aos anos imediatamente depois da geração Zico. Ora, podemos considerar que o Flamengo de 1979 a 1992 viveu um apogeu sem paralelo na história do esporte brasileiro – e muito disto se deveu a homens fortes: Zico, Júnior, Leandro, Adílio, Andrade, Lico, Raul, Mozer, entre vários.

    Homens que valorizavam o trabalho (treino) acima de tudo, homens que sabiam estar lutando a batalha de suas vidas. Estes homens elevaram o Flamengo, no plano mundano, ao patamar em que o Flamengo sempre esteve no plano etéreo: o patamar de maior clube de todos os tempos.

    Em cima deste patamar, surgiu uma outra geração, também muito talentosa. Os Gaúcho’s Boys (invenção bem-humorada do saudoso Luis Carlos Tóffoli – que não era parente, de forma alguma, do ministro do STF) comemoravam gols fazendo trenzinhos, apareciam em eventos não-esportivos, começaram a investir em carrões e roupas de grife.

    Tempos mais fáceis. Eles tinham, sem dúvida, o talento, e o Flamengo já estava no patamar máximo da realidade. Restava a eles criar a Marra, este ingrediente que acabou se perpetuando por alguns anos no clube. Jogadores que não tinham um décimo do talento dos Gaúcho’s Boys passaram a andar com celular top de linha numa mão, colar de ouro e carros importados. Tempos cada vez mais fáceis. E homens cada vez menos eficientes.

    Tempos que incluíram de tudo: farras, brigas internas, dívidas se acumulando, locais precários de treinamento, bagunça generalizada, jogadores aos montes sendo contratados, seis técnicos a cada temporada. Tempos difíceis – mas para nós, torcedores.

    Naqueles tempos de gestão temerária e sem direção, empresários e pais de jogadores faziam de tudo na Gávea, mandavam e desmandavam. Jogadores que tinham entrado em campo duas vezes pelo Flamengo e recebido duas notas sete no Globo viravam “novos Zicos”. E tome celular, óculos escuros, carros novos.

    Só que hoje, ao que parece, temos exemplos mais pé-no-chão. E uso como paradigma o meio-campo Diego. Observe suas entrevistas, sua postura, analise o teor de suas declarações.

    Sim, pode ser tudo ensaiado, mas é BEM ensaiado, bem estudado. Diego mostra REVERÊNCIA AO FLAMENGO, em vez de reverência ao celular e ao carro. Diego treina, trabalha, se esforça, procura manter a forma. Os jogadores aparecem, sim, em eventos. Todos juntos.

    Este mindset que vem se estabelecendo entre os jogadores do Flamengo pode ser a salvação para Vinícius Jr. Ele pode aprender que o trabalho é o único caminho, que todo esse deslumbre pode ser curtido melhor com moderação até os 34 anos e do jeito que ele quiser depois disso (caso ele opte por parar).

    O exemplo de um Diego, consagrado em outros clubes mas reverente ao Flamengo, é a melhor história a ser contada a Vinícius Jr. Quando aos vídeos que o Neymar enviar, sugiro ao Flamengo fazer uma resposta. Com o Diego pedindo ao amigo que sossegue o facho, porque aqui é Flamengo.

    Depois de dois anos no Flamengo, seguramente Vinícius Jr. partirá para uma carreira de ouro no futebol europeu e conseguirá sua independência financeira e de seus familiares.

    Não há nada de errado nisso – o futebol de hoje tem como fonte de custeio exatamente a venda de jogadores. Uma gestão que tem colocado o clube de volta aos trilhos precisa, sim, fazer boas vendas, sem precipitações.

    E no mais, um Vinícius Jr. campeão mundial tem muito mais valor, concordam?

    2 Comments

    1. Carlos alberto

      18 de março de 2017 at 17:37

      Precisam de mais conjunto com os vereranos para ele não se perder.

    2. Raimundo lopes

      18 de março de 2017 at 19:19

      Parabéns pela matéria mais inteligente que li nos últimos anos, PARABÉNS!!!

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