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Bandeira, os ‘falsos rubro-negros’ e uma lembrança: o Fla não foi fundado em 2013

Por em Maio 18, 2017
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Bandeira de Mello é o presidente de uma gestão indiscutível no plano econômico/financeiro do Flamengo. Leva méritos em alguns casos além da conta, pois nada faria sem os muitos que participam, ou participaram, desta revolução rubro-negra. Como ocupa o cargo maior, é quem ganha a maioria dos confetes.

Consequentemente está mais vulnerável às críticas, embora nem sempre reaja bem diante delas, seja de torcedores, com os quais já bateu boca, ou jornalistas que lhe façam perguntas pertinentes, mas desconfortáveis. Jornalistas
que agem como jornalistas, não como assessores.

Mas é um homem sério, normalmente educado, ponderado, e honesto, disso ninguém duvida. Tem perfil político, dizem até que pensa em se candidatar a algo fora do clube no futuro (sua assessoria afirma que não). Bandeira desenvolveu prestígio com a torcida, merece elogios por motivos vários, mas não está acima do bem e do mal.

Semana passada, sua aparição ao lado da ex-presidente Patrícia Amorim na coletiva com o prefeito Marcelo Crivella foi mais chocante para muitos do que o surpreendente. Na gestão de sua antecessora a dívida do Flamengo disparou.

E ela deixou heranças, como o caro duelo na justiça do trabalho com Ronaldinho Gaúcho. Se a ex-presidente, subsecretária de esportes do Rio de Janeiro, eventualmente ajudou nos bastidores pelo apoio do prefeito ao projeto de estádio na Gávea, um muito obrigado seria o bastante.

Não para o político Bandeira, que a aceitou à mesa. O mesmo que topou convite para chefiar delegação da CBF, recuou, mas ainda assim viajou aos Estados Unidos atrás dela em 2015. Isso após seu surpreendente surgimento na cadeira de Marco Polo Del Nero, entre Dunga e Gilmar Rinaldi. Melhor para Amorim, destacada ao lado do atual presidente até no site do Flamengo.

Habituado a aparições de viés político, Bandeira costuma ser evasivo quando as coisas não vão bem no futebol. Em geral diz que confia no trabalho das pessoas etc. Faz bem em confiar, mas presidente do Flamengo também precisa comandar, decidir e em alguns casos interferir. Com firmeza, conhecimento e convicção.

A eliminação da Copa Libertadores engrossa a lista de vexames internacionais do clube neste século – clique aqui e leia post de 2016. Na atual gestão, a queda para o San Lorenzo é o segundo papelão além fronteiras, depois de ser desclassificado da Sul-americana pelo pequenino Palestino, do Chile, ano passado.

A reação presidencial após a eliminação, consequência da terceira derrota em três jogos fora do Rio de Janeiro, foi de uma naturalidade inacreditável. E tratar tal resultado como se fosse repara-lo com o mesmo “remédio” indicado após um tropeço nas primeiras rodadas da Taça Rio, algo desproporcional ao desastre.

Justo que não quisesse tomar decisões precipitadas, ser contra demissões no estilo bode expiatório, procurar ganhar tempo para não errar, como fez o time. Ah, e degolar Zé Ricardo é ideia absurda. Mas ao menos uma satisfação ao torcedor seria necessária.

Poderia ser até um pedido de desculpas à “Nação”. Com a promessa de revirar pelo avesso o futebol do Flamengo o quanto antes, para detectar onde foram cometidos os erros que levaram a mais uma desclassificação. Será que Bandeira imaginava o torcedor indo dormir satisfeito só por saber que ele confia em quem contratou?

O presidente do Flamengo parece sentir-se mais à vontade em meio aos deputados e senadores em Brasília, como na aprovação do Profut, ou ao lado do prefeito e integrantes de seu secretariado. No futebol, como um peixe fora d’água, não conseguiu dimensionar a vergonha internacional pela qual o clube passa mais uma vez.

Ao falar com jornalistas no Nuevo Gasometro, aparentemente não sabia o que fazer, em consequência não parecia ter ideia de como proceder diante do fato. O jeito foi tratar a eliminação na Libertadores como se fosse apenas um 0 a 0 com o Bangu numa quarta-feira à noite em Volta Redonda.

Diante de respostas evasivas, que não atendem às expectativas de quem busca informação e daqueles que a consomem (leitores, ouvintes, internautas, telespectadores), a função do jornalista é perguntar outra vez. E quantas forem possíveis/necessárias. Se nem assim o entrevistado responde adequadamente, o julgamento é de quem, do outro lado, espera ouvir algo que faça sentido. No caso os torcedores do Flamengo, que tiveram de se contentar com uma espécie de reprise de tantas outras entrevistas ocas de seu presidente.

‘Falsos Rubro-Negros’

Só ingênuos caem na velha estratégia do “quem está contra mim, está contra o clube”. Outros dirigentes, e de estilo “Raposa”, já apelaram para isso antes, como Bandeira fez ao se referir a sabe-se-lá quem como “falsos rubro-negros” que estariam no Twitter, rede social da qual ele já recebeu troféu. Da Conmebol segue sem levantar taça.

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O Flamengo melhorou demais administrativamente nos últimos anos. Mas ao contrário do que alguns parecem crer, não foi fundado em 2013, quando a atual gestão começou. E o cargo de presidente não concede poderes a cartola algum para chancelar quem é, ou não, torcedor daquele clube.

Mas o coloca na linha de frente quando as coisas vão mal. Então precisa encarar a imprensa, não as carícias da TV oficial. Ali, o repórter é mero intermediário entre o dirigente e a torcida, cujo sofrimento após novo vexame não tem nada de falso. Ele é bem verdadeiro.

Mauro Cezar Pereira, blogueiro do ESPN.com.br

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