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Vaiar ou calar?

Por em junho 21, 2017

E não é que voltei para criar um caso? Pois então, estou aqui para falar sobre um tema que muito se discute, muito se desgasta, muitos apoiam, outros abominam e assim segue a democracia do torcedor, que deve ser respeitada em primeiro lugar.

Nada de dar showzinho ou massacrar o coleguinha. Somos todos torcedores, nem mais, nem menos que os demais. Legítimos.

Assim que você nasce pode ter certeza que na grande maioria dos casos, ainda nem se escolheu o nome mas já definiram qual torcida você vai engrossar o coro. Lá em casa, por exemplo, se não for Rubro-Negro, nem nasce. E tal legitimidade em tempos de redes sociais, passou a ser questionada.

Quem é mais torcedor? Quem é falso torcedor? Quem é o verdadeiro torcedor?

Mas a verdade é que não há cartilha, manual, ou a bíblia do torcedor. Não há nada que legitime ou não um comportamento.

Há quem diga que o Flamengo é uma religião. E como tal, não se pode contestar, difamar ou ir contra, sob o risco de se tornar um herege.

Tem também que faça da relação como se o Clube fosse um filho. Podemos reclamar do diretor (presidente do clube) da escola que ele estuda, mas não podemos ir à escola (estádio) e vaiar o moleque (time) quando não vai bem.

Mas tem aquela relação mais passional, onde, em nome de todo esforço, toda dedicação e tudo mais que é feito, dá o direito ao torcedor a abrir o berro e soltar a vaia. Afinal, cadê meu valor de torcedor convertido em gols e vitórias?

Seja lá a forma de torcer, não há o certo nem o errado. Desde que com respeito, é legitimo ao torcedor soltar a voz. E quando falta o grito de gol, sobra o grito da insatisfação.

E cabe ao torcedor e àqueles que gerem diretamente o futebol, que saibam trabalhar as críticas recebidas.

Em duelo válido pela quarta rodada do Campeonato Brasileiro o Cruzeiro foi dominado e derrotado pela Chapecoense no Mineirão, por 2 a 0.

O time do Cruzeiro deixou o campo muito vaiado pela torcida.

Robinho, experiente, declarou:

O futebol é assim, ninguém nunca vai entender a cabeça do torcedor. Eu fico bem tranquilo porque sei que se tivéssemos ganhado, seríamos os melhores, o líder. Como quando nós ganhamos na Vila Belmiro, nosso time era guerreiro. Isso faz parte. A gente tem que entender que isso é a rotina do jogador, tem que estar acostumado com a vaia. Eu não vou sentir pressão, de maneira alguma. Temos que absorver isso da melhor maneira possível para entrar em campo no próximo jogo e vencer”

Será que este é um problema? Saber ou não lidar com as vaias? Não seria o caso e olhar por outra ótica? Por que dizer ao torcedor que não deve vaiar, e não receber as vaias como uma crítica à um resultado não entregue?

Para entender melhor sobre o tema, perguntei ao nosso ídolo maior, Zico, qual foi a maior vaia recebida por ele. E como ele reagiu?

Zico lembrou de primeira sobre junho de 1979 quando a Seleção do “Resto do Mundo” da Fifa enfrentou a Argentina em comemoração pelo Aniversário de um ano da conquista da Copa do Mundo de 1978.

“Bearzot (Enzo), técnico italiano convocou eu (Zico), Leão e Toninho, e quando nossos nomes foram anunciados ,eu e Toninho que entramos ,foi a maior vaia que ouvi na vida. Argentina vencia por 1×0 e no segundo tempo dei o passe pro Paolo Rossi fazer o gol, mas o zagueiro fez contra, e depois o Toninho me deu o passe que fiz o segundo e gol da vitória. Que bom calar 70 mil pessoas no Monumental de Nunes, estádio do River Plate”

Diante do relato do nosso ídolo maior, refleti o seguinte: a vaia do adversário aumenta a vontade de ganhar? Ou não faz diferença de onde parte a vaia, o brio e a vontade de reverter o quadro é sempre (ou deveria) ser maior?

Tite, o técnico “garoto propaganda” da Seleção Brasileira, por muitas vezes, quando ainda técnico do Corinthians, em suas coletivas, pediu ao torcedor apoio, e que no lugar das vaias, seus atletas pudessem receber incentivo de sua torcida.

Diretor executivo de Futebol, Paulo Pelaipe, diz o seguinte sobre vaias:

“A vaia do torcedor atrapalha e muito uma equipe de futebol, ela desestabiliza, cria uma ansiedade, uma angústia, pois se os resultados não chega os atletas tentam resolver os problemas sem a tranquilidade, ficam afoitos, procuram alguns, até a se esconder pra que a bola não chegue à eles. Durante os 90 minutos o torcedor tem que incentivar independente de quem esteja vestindo a camisa do seu clube. Depois da partida, com o jogo encerrado, quando a equipe não fez por merecer, aí sim sou favorável a vaia do torcedor como forma de protesto pela atuação deficiente, este é um meio válido, pois esta é a arma do torcedor VAIAR, sem agressões, sem atitudes que não combinam com a civilidade.”

Ouvimos, e constatamos democraticamente as mais variadas opiniões sobre o tema vaia.

Ao final, o que precisamos pensar é no limite da vaia, do xingamento e do insulto. Por muitas vezes uma manifestação pode mostrar mais que uma insatisfação, e sim uma atitude mal educada e por vezes, violenta. E no futebol, essa natureza competitiva inerente ao ser humano é amplificada. E já que nós, torcedores, não podemos entrar em campo para “resolver”, depositamos todas as nossas expectativas nos pés daqueles que nos representam. E além da expectativa, colocamos a paixão. A relação torcedor e time, não cabe entendimento. E a intensidade dessa relação só pode ser medida e avaliada por aquele que o sente.

Portanto, sem querer criar regras ou manual de bons modos, é preciso sempre colocar à frente de tudo o bom senso, e o respeito ao modo de torcer daquele que independente de torcer como nós, também carrega a paixão pelo clube. É preciso respeitar a legitimidade de torcer, criticar e até mesmo vaiar, e sobretudo é preciso uma reflexão do limite. Até onde sua vaia não se tornou falta de respeito com o próximo?

Sendo assim, antes que eu receba uma vaia, vou fazer meu apelo: torçam. Apoiem. E acima de tudo: Respeitem. Somos todos torcedores.

One Comment

  1. Carlos Motta

    21 de junho de 2017 at 16:58

    Perfeito o texto da Marcella .
    Muito precisa e oportuna a análise , sobretudo em tempos de excessos e polarizações , o respeito à diversidade no modo de externar paixões clubísticas deve ser preservado assim como o limite que cada um deve ter para não intervir no modo como “o outro” se comporta

    Urubu Guerrero – Twitter
    ( @FlaZapatista )

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