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O Flamengo dos heróis improváveis vai à final da Sul-Americana

Por em dezembro 1, 2017

O Flamengo de 2017 é uma roleta-russa. Gargalhada e pranto que se alternam de maneira delirante, sem nenhum nexo. Se a temporada fosse avaliada por um psiquiatra, o diagnóstico de algum transtorno seria praticamente certo. Não há lógica em um time que sente a maciez das nuvens e o calor do vulcão em erupção todo santo jogo. E que, da deflagração de uma nova crise que se estampa a cada jornal, ainda pode fechar o ano publicando o pôster de campeão que não tem há 18 anos. O Fla que decepciona por todos os investimentos é o que está muito próximo da taça. O mesmo que não engrena no Brasileirão, mas ainda luta por um dos principais objetivos. Que, graças à humilhação na Libertadores, estará na final da Copa Sul-Americana. Em uma noite de ranger os dentes, venceu o Junior por 2 a 0 em Barranquilla, para um riso convulsivo permitido apenas a quem sente penetrar na mente a insana paixão de ser rubro-negro. Alucinação inescapável a esse arrebatamento chamado Flamengo.

O roteiro do Flamengo em 2017, afinal, é escrito por algum deus do futebol completamente sádico. É aquele que deixa o time sofrendo até os últimos instantes, só para testar a fé dos que proclamam o maior amor do mundo. Que parece até trabalhar para algum instituto cardiológico, analisando quantos corações falharão ao longo da noite. E o filme nesta quinta-feira foi o mais clichê possível, talvez para atiçar a incredulidade por aquilo que, na ficção, pareceria óbvio demais. Se o principal atacante do time sofre a provação em terras estrangeiras, quem será o substituto? Ele mesmo, o jovem pouco cotado que se transforma em herói depois de bater no peito e mandar até companheiro para aquele lugar: Felipe Vizeu, autor de três dos quatro gols nas semifinais. Mas ainda mais óbvio e, nesta lógica irracional, improvável, é o protagonista de luvas. O esquecido de parca experiência e que não jogava fazia dois anos, mas entra para pegar até pênalti, carregado nos braços por todos: César, o messias de ocasião.

Com César e Vizeu, o Flamengo escalou o seu time para o duelo decisivo no Estádio Metropolitano Roberto Meléndez. A novela Muralha não se estendeu em campo, como era de se imaginar, com o goleiro sequer relacionado para o banco de reservas. Apostava-se mais na incerteza de um titular sem ritmo do que na falta de confiança que parece irremediável. Além disso, Reinaldo Rueda ordenou uma postura defensiva, cautelosa. Uma novidade no 11 inicial seria Lucas Paquetá, encarregado de oferecer energia no combate, mas também livre para criar asas nos contra-ataques.

O Flamengo do primeiro tempo foi samba de uma nota só. E desafinado. A pressão do Junior começou desde os primeiros minutos, com os colombianos se impondo no campo de ataque, pressionando a saída de bola rubro-negra. Aos cinco minutos, o primeiro grande susto, mas que talvez tenha valido a noite. O Tiburón tinha uma falta perigosa na entrada da área e Matías Mier soltou a bomba em direção ao gol. A bola passou por uma porção de pernas e, ainda que o lance fosse invalidado por impedimento, César fez uma defesaça na pura agilidade. Aquele lance para valer o moral do novo dono da meta, passando o restante dos minutos seguro no trabalho que faria.

Muralha, no fim das contas, foi útil o Flamengo. E não apenas pelo drama que certamente comoveu os companheiros, usado na preleção. Mas sim por escancarar uma fragilidade que não se provou. O Junior importunou a defesa rubro-negra durante a maior parte do primeiro tempo. Todavia, ao invés de tentar invadir a área e gerar chances mais concretas, os colombianos preferiam arriscar de longe, a esmo. Chutes mais difíceis de serem acertados e que, no fim das contas, pouco ameaçaram a meta de César. Dominando a posse de bola, os alvirrubros arremataram insistentemente. Mesmo com a navalha na garganta, o Fla enchia o pulmão de ar.

O problema é que, do outro lado do campo, pouco se via o time de Reinaldo Rueda. Havia uma dificuldade extrema em sair ao ataque. A bola queimava, entre passes errados e chutões de volta aos adversários. Se existia um alento, este era Lucas Paquetá. O jovem fazia uma função tática importante, auxiliando Trauco a cercar Yimmi Chará, sempre o mais perigoso do Junior. Mas também era o mais lúcido com a bola, especialmente em suas arrancadas em direção à área adversária. Na linha de frente, as trocas de posições entre Vizeu, Diego e Everton Ribeiro não funcionaram, diante da falta de ligação e da letargia de ambos os armadores.

O Flamengo só foi criar suas primeiras chances lá depois de meia hora. Dois cruzamentos que não tiveram a melhor definição, mas fizeram os torcedores colombianos prenderem a respiração. E, aos 39, na melhor oportunidade, Sebastián Viera realizou uma grande defesa com os pés, após tentativa de Vizeu. Quando souberam trabalhar os passes, os rubro-negros suaram menos, embora a insistência nos cruzamentos se repetisse. Por fim, a última ameaça do Junior antes do intervalo terminou, com razão, em reclamação. Juan teve outra atuação de encher os olhos na competição continental. Era onipresente e eficiente no combate, sobretudo para fechar os espaços aos arremates. Ia bem ao lado de Rhodolfo, o companheiro repentino após a lesão de Réver. Aos 43, porém, o veterano cometeu seu único pecado. Errou ao tentar interceptar um cruzamento e a bola bateu em seu braço, aberto. Pênalti que, para a sorte dos cariocas, a arbitragem não viu – ainda sem o auxílio do VAR, regularizado apenas às finais da Sul-Americana.

flamengo

O Junior mudaria um pouco o seu plano de jogo para o segundo tempo. Saía Mier para a entrada de Roberto Ovelar, atacante com mais presença de área. Os chutes passariam a ser melhor planejados, com Teo Gutiérrez recuando um pouco mais na armação. E o plano era botar o Flamengo contra a parede. Pressionando, o time da casa teve duas excelentes chances em infiltrações na área. Yony Gutiérrez caiu após se enroscar com Pará, de frente para César. Logo depois, Teo bateu cruzado e a bola rasante na pequena área não teve ninguém que a botasse para dentro. Quando o sufoco era iminente, o Fla achou seu gol, aos seis minutos. Méritos totais de Vizeu.

Depois da vitória por 2 a 1 no Maracanã, diante das possibilidades no placar, estava claro que o Flamengo jogaria por uma bola que pudesse oferecer um pouco mais de tranquilidade. E ela veio de um contra-ataque forjado em toda a potência da juventude de Vizeu. O centroavante recebeu de Trauco ainda no campo de  defesa e, no domínio, conseguiu driblar o marcador. Saiu em disparada. Seu perseguidor ainda deu um leve toque na perna do camisa 25, mas foi ele quem desequilibrou. Vizeu invadiu a área com o gol escancarado e, em dose de sorte, sua finalização passou por entre as pernas de Viera. Naquele momento, o Junior precisava de dois gols para forçar os pênaltis.

Vez por outra, o Flamengo ainda assustava nos contragolpes. Mas o jogo se desenrolava na palma da mão do Junior, que adicionava mais jogadores ofensivos em campo. As jogadas do Tiburón saíam com mais fluidez, encurralando o esforço defensivo dos rubro-negros. E como se o drama não bastasse, César começou a sentir cãibras, que mais pareciam causadas por uma maldição inquebrável aos goleiros do clube. Por sorte, o camisa 24 permaneceu em campo e faria outras boas intervenções, ajudado também pelos cortes providenciais de seus companheiros – sobretudo Juan e Rhodolfo. Além disso, houve uma terceira reclamação de pênalti, após Cuéllar chegar no corpo de Teo Gutiérrez. Nada que o árbitro, deixando o jogo fluir na maior parte do tempo, tenha assinalado.

As faíscas entre os dois times eram constantes e os problemas de César aumentavam a irritação dos colombianos pelo tempo gasto. Já aos 34, sem contra-ataque, o Flamengo assumiu a vocação à penitência com sua primeira substituição: Márcio Araújo entrou no lugar de Éverton Ribeiro. O perseguido volante, todavia, não comprometeu. Pelo contrário, em um momento no qual os rubro-negros concentravam todas as suas forças em se safar, ele deu sua contribuição. Diante do nível de pressão do Junior, de qualquer forma, o gol de empate parecia inevitável. Brecha dada por William Arão, que cometeu um pênalti, desta vez apitado. O relógio apontava 43 minutos

Melhor jogador do Junior, Chará partiu à cobrança. E esse seria o clichê máximo para alçar César ao posto de salvador. Em ironia do destino, o novato resolveu pular ao canto esquerdo, justamente ao lado do qual Muralha fugiu na final da Copa do Brasil. Espalmou o chute do ponta, em uma bela defesa. Depois da partida, o camisa 24 contou que a escolha não foi a esmo, após estudar o padrão das penalidades de Chará. Um estudo não entrou na estratégia diante do Cruzeiro.

O milagre de César fez o Junior abrir mão de suas esperanças em definitivo. Assim, aos 46, Vizeu anotou o seu segundo gol e fechou a conta. Diego cobrou uma falta rápida para Rodinei, que saíra do banco substituindo o extenuado Paquetá. O reserva chegou à lateral da área e cruzou, para o centroavante se antecipar à marcação, cutucando para dentro. A festa era rubro-negra em um jogo que, se Gabriel García Márquez, torcedor do Junior, estivesse nas arquibancadas, talvez achasse inverossímil demais para virar crônica em seu realismo fantástico. Tudo o que não parecia dar certo, ao final, deu. O placar de 2 a 0 soa paradoxal diante de todo o sofrimento na noite. Afinal, até aquele flamenguista mais confiante passou os 90 minutos esperando a tragédia.

Na saída de campo, os microfones se voltaram a César e a Muralha. Pois os goleiros deram sinais importantes de fraternidade. Tratado como paria, o antigo titular sorriu pelo bom trabalho do substituto e chorou ao pedir desculpas pelas falhas. Já o salvador da vez rasgou elogios ao profissionalismo de Muralha, especialmente no trabalho cotidiano e pela motivação. César não é o goleiro perfeito. Em outros tempos, especialmente na conquista da Copa São Paulo de 2011, demonstrava problemas nas saídas pelo alto. Talvez tenha corrigido as deficiências em tanto tempo se dedicando aos treinos, embora o Junior não tenha explorado isso e, durante os cruzamentos, raramente ele deixou a pequena área. Mas, nesta noite, ele foi perfeito naquilo exigiram. Bota o Fla na final.

O Independiente, adversário derradeiro, inspira todos os cuidados. Não somente por sua tradição, mas também por possuir um bom time. E, no histórico, possui um título continental sobre o Flamengo. Em 1995, o Rojo derrotou os rubro-negros na decisão da extinta Supercopa, aniquilando a última chance de conquista ao time de Romário e Sávio no ano do centenário. Depois de tanto tempo, a história poderá ser diferente. O intuito dos dois gigantes é se reerguer no continente, por uma taça secundária, mas que não experimentam há tempos – o Fla, desde a Mercosul de 1999, e o CAI, desde a Copa Sul-Americana de 2010.

E, na volta ao Rio de Janeiro, o Flamengo ainda pode tirar uma lição. Em um ano de tantos investimentos, os heróis na vitória mais importante foram exatamente três jogadores da base. Não há lógica para explicar o 2017 rubro-negro. Um ano em que, diante de todo o vendaval, teve trunfo na loucura compartilhada pela torcida para, quem sabe, fechar dezembro tomando as ruas desvairadamente.

Trivela

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