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Invasão do Maracanã: misto de ausência do poder público, caos social e higienização dos estádios

Por em dezembro 18, 2017

Você sabe quantos homens trabalharam na final da Copa Sul-americana no Maracanã? O Gepe (Grupamento Especial de Policiamento em Estádios), da Polícia Militar, contava com 320. Seguranças contratados seriam inicialmente 798, mas depois a quantidade foi aumentada para 887. Já a Guarda Municipal mandou 190 e o 6° Batalhão da PM tinha 220 homens no policiamento externo. Total: 1.617, segundo a administração do estádio, que ainda assim foi invadido. Controlar aquele ataque não era tarefa simples, mas já se sabia que aconteceria.

O blog detalhou a invasão na noite da primeira peleja decisiva da Copa do Brasil, três meses e cinco dias antes da barbárie de quarta-feira passada — clique aqui e leia. Não se trata de concordar com o que aconteceu, mas é preciso tentar entender, e há um ponto importante que merece reflexão. No passado, milhões queriam ir ao jogo decisivo e não cabia todo mundo lá. A maioria aceitava, se conformava, porque via outras partidas e sabia que na próxima final poderia ter mais sorte e comprar ingresso.

Mesmo assim havia quem entrasse sem pagar, na marra. Não no volume absurdo da semana passada, mas acontecia. Vi pessoas escalando os portões monumentais do então maior estádio do mundo no Flamengo 3 x 1 Vasco da Taça Guanabara em 4 de abril de 1976. Jogo de turno, nada decisivo, visto por 174.770 pagantes e um sem número de penetras. Na época comprávamos ingressos na hora, mas o número de pessoas que foi àquela partida superou largamente as mais otimistas das expectativas. Decepcionado, voltei para casa com meu pai e ouvi pelo rádio.

Cinco anos depois, também no clássico dos milhões, daquela vez valendo o título carioca, um amigo nos encontrou na arquibancada com o ingresso intacto nas mãos. Foi impossível chegar às roletas de acesso. Empurrado pela massa humana até o portão, não teve opção além de escalá-lo e pular a imensa grade. Foram 161.989 pagantes e milhares que invadiram naquele 6 de dezembro de 1981. Até mesmo a final da Copa de 1950 teve invasão. Em 16 de julho de 1950, Brasil 1 x 2 Uruguai recebeu 173.850 torcedores como público oficial, mas muitos afirmam que lá dentro eram mais de 200 mil brasileiros.

E havia a geral, setor que concentrava os mais pobres e dava um tom mais democrático ao velho Maraca. Hoje o torcedor sem maiores condições financeiras está totalmente afastado dos jogos. Pelas mudanças ocorridas e por opção do Flamengo. Esse rubro-negro não pode mais ver seu time, fecharam a porta na cara dele, apesar de sobrarem milhares de cadeiras vazias em quase todas as partidas, exceção são essas, especialíssimas.

Os ingressos têm preços proibitivos na maioria das pelejas do time de maior torcida no país. Se o flamenguista não é sócio torcedor, ir a um jogo vira programa restrito à classe média alta, de tão caro. Isso é responsabilidade do clube, que vira as costas para parte significativa do seu povo, prefere públicos pequenos do que essa turma de duros por lá. Sim, a higienização dos estádios tem parcela nisso aí.

Aí há uma torcida organizada banida, cujos integrantes nada têm a perder e armam “bondes” de invasão. Isso acontece mais de uma vez. Sabendo do movimento, parte dos excluídos de todos os jogos engrossam essa turba. É um misto de vandalismo com reação à segregação. O cara não vê mais o time dele, não deixam, em jogo algum. Então também vira franco-atirador.

Sim, é cumulativo. Então explode. E por que explode? Porque o governo, o poder público não está presente em vários momentos no Rio de Janeiro, onde o caos impera. E pessoas fazem o que jamais tentariam, não fosse o ambiente semianárquico do Estado quebrado, sem pagar servidores, com hospitais em frangalhos, ex-governadores presos e onde o crime domina de diversas formas.

Reforçando o que escrevi no segundo parágrafo, não se trata de concordar com as barbaridades da noite de 13 de dezembro, mas buscar compreender o que se passou. Em 1992 já havia arrastão na praia de Ipanema. O “bonde da invasão” de certa forma até demorou a ganhar corpo no Maracanã. Muita gente que jamais poderá comprar ingressos nas condições atuais se planta diante de um dos portões. Veem aquilo como uma chance. Numa espécie de terra de ninguém, eles sabem: o bonde vai passar, o bicho vai pegar, e ninguém vai segurar. Nem a PM!

O contingente na final da Sul-americana:
Gepe 320
Segurança privada 887
Guarda Municipal 190
6º Batalhão 220*
Total: 1.617
* policiamento externo
Fonte: Maracanã
Mauro Cezar Pereira, blogueiro do ESPN.com.br

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