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    Quando a bola não entra

    Por em dezembro 28, 2017

    Era uma vez um clube de futebol, um dos maiores do Mundo, que se encontrava numa situação financeira muito difícil, com uma gestão ineficaz e bem aquém do lugar que poderia estar. Então, um grupo de pessoas bem-sucedidas em suas profissões disputou e ganhou a eleição, dando início à reestruturação gerencial e financeira do clube. Contratou executivos experientes para efetuar o trabalho e, em 5 anos, mais do que duplicou suas receitas, reduziu sua dívida pela metade e contratou alguns dos melhores jogadores da atualidade.

    A despeito de ter, na teoria, o melhor elenco, isso não se refletia dentro de campo. Chegou a  ganhar alguns títulos no inicio, mas nos últimos anos da gestão, não conseguiu vencer nada relevante. Dentro do próprio clube dizia-se que a torcida não queria comemorar balanço financeiro, referindo-se à melhora significativa das finanças. O presidente, então, para tentar mudar a situação, dispensou e contratou vários treinadores e continuou trazendo novos jogadores. Mas nada dava certo. Então, ele viu que só havia uma solução que servisse a seu clube, que era a sua maior paixão: Renunciou!

    Essa é a história de Florentino Pérez que, no ano de 2000, foi eleito pela primeira vez presidente do Real Madrid. Assumiu o clube com uma receita de 118 milhões de euros e uma dívida de 162 milhões de euros. Um situação insustentável e que necessitava de medidas urgentes para remediá-la. Suas principais iniciativas, então, foram: (1) fortalecer o clube financeiramente, aumentando receitas, reduzindo custos e despesas, vendendo ativos; (2) contratar vários dos melhores jogadores do mundo, tais como Figo, Zidane, Beckham e Ronaldo, dentre outros; (3) profissionalizar a gestão, contratando 4 executivos bem-sucedidos para dirigir o clube no dia a dia. Estes usaram sua vasta experiência, reputação e credibilidade para conseguir os recursos necessários para o processo de recuperação.

    Pérez entendia que contratando os melhores jogadores, o time se tornaria quase imbatível e, consequentemente, as receitas aumentariam, trazendo desejado equilibrio financeiro.

    Na temporada de 2005, a receita tinha mais do que dobrado, alcançando 292 milhões de euros, passando de 5° lugar entre os clubes europeus em 2000 para 1° lugar em 2005. A dívida foi reduzida à metade em 2005 quando comparada à de 2000, alcançando 84 milhões de euros.

    Do início da temporada de 2000/01 até o inicio de 2004, o Real Madrid obteve uma boa performance, ganhando 2 La Ligas, 1 Champions League, 2 Super Copa da Espanha, 1 UEFA Super Cup e 1 Intercontinental Cup. A partir daí e até o fim da temporada 2005/06, a performance caiu bastante e mais nenhum título foi conquistado. Neste período, aconteceram varias trocas de treinadores, sem nenhum resultado. Um executivo chegou a dizer que a torcida não queria celebrar balanço financeiro na Fonte de Cibeles em Madrid, local aonde os torcedores costumam comemorar títulos desportivos.

    Como consequência do péssimo desempenho esportivo apesar de um investimento vultuoso, o presidente Florentino Pérez renunciou ao cargo em fevereiro de 2006. Na época, ele afirmou:

    “Nós construimos um grande time, mas talvez eu não tenha sido capaz de fazer os jogadores entenderem a importância de suas responsabilidades, talvez eu os tenha ensinado erradamente”.

    “O Real Madrid necessita de uma troca e este é o momento oportuno para que eu deixe a presidência”.

    “Minha decisão ajuda ao Real Madrid e creio que possa ajudar ao clube no restante da temporada e na próxima”.

    “Talvez eu tenha educado mal os jogadores e o que quero agora é dizer-lhes que o único importante é o Real Madrid. Nesse sentido, o único culpado sou eu. Com minha renúncia, devem ver que o único importante é o Real Madrid”.

    Esta história está retratada no livro “The Real Madrid Way”, escrito por Steven G. Mandis, cuja leitura recomendo fortemente. Esta passagem do livro merece destaque, pois retrata bem a paixão, a dimensão e o respeito que Florentino Pérez nutria (ainda nutre) pelo Real Madrid.

    Em um período do ano onde é usual se fazer balanços e planos, fica a reflexão.

    Wallim Vasconcellos (Sócio Emérito do Flamengo, Membro dos Conselhos Deliberativo e de Administração, ex-Vice Presidente de Patrimônio e ex-Vice Presidente de Futebol Campeão da Copa do Brasil 2013 e Carioca 2014)

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