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Flamengo na janela: falha de planejamento ou aposta calculada?

Por em Janeiro 30, 2018
flamengo

Não é preciso ser muito observador para notar que a atuação do Flamengo nessa última janela de transferências foi, no mínimo, tímida. Fora a contratação do colombiano Marlos Moreno, atleta que é mais uma promessa do que uma realidade, e a chegada de Julio César, que vem muito mais para se despedir do futebol e usufruir daquele ar-condicionado que ele comprou pro clube em 2004 do que pra disputar a titularidade, os principais reforços do clube foram realizados através da saída, e não da chegada de jogadores.

Ainda assim, vários nomes foram cogitados, alguns deles aparentemente em longas negociações nas quais o sucesso do Flamengo foi inversamente proporcional ao volume de cobertura oferecido – o volante Walace, do Hamburgo, por exemplo, não veio para a Gávea, mas hoje sabemos que a esposa dele está grávida e que o diretor de futebol do clube alemão, Jens Todt, tem fama de ser duro nas negociações. Transferências não temos, mas informações aprendemos, vamos dizer.

Mas esses reforços realmente iriam qualificar o elenco rubro-negro? Ainda que seja impossível dizer com certeza, analisar os cenários dessas negociações, mesmo não concretizadas, nos ajuda um pouco a entender o quão frustrados ou não deveríamos estar com a atuação do Flamengo nessa janela de transferências.

Começaremos com os reforços defensivos, que seriam o zagueiro Pablo, ex-Corinthians, e o lateral Zeca, ex-Santos. O primeiro deles se encaixa no que seria uma lacuna já identificada pelo departamento de futebol rubro-negro, que é a necessidade de um zagueiro jovem para contrabalançar a idade avançada dos principais defensores do grupo (nenhum abaixo dos 30 anos), e com 26 e parte do time campeão brasileiro pelo Corinthians, o atleta poderia ser a solução ideal para essa necessidade. Porém, a pedida de 12 milhões de reais do Bordeux melou a negociação do jogador, que muito provavelmente viria para revezar com Juan e Réver.

Já o lateral, ainda em litígio judicial com o Santos, teve suas bases salariais negociadas, mas foi vetado pelo jurídico rubro-negro, selando sua ida para o Girona, da Espanha. Provavelmente a mais animadora das negociações que não deram certo, o lateral ambidestro e campeão olímpico viria para assumir a titularidade do lado que tivesse vontade ou, dependendo das partidas, até mesmo dos dois lados ao mesmo tempo, já que em algumas partidas temos a sensação de que um bom lateral, mesmo se o time ficasse com 10 em campo, já seria melhor que Renê e Pará na defesa.

No meio de campo a negociação foi com o volante Walace, de 22 anos, ex-Grêmio, que viria por empréstimo e para uma posição já um tanto quanto disputada no Flamengo, já que para duas vagas temos os atuais titulares William Arão e Cuellar, assim como as revelações Ronaldo e Jean Lucas, a incógnita Rômulo e o gladiador romano transportado por engano para o presente Jonas. Ou seja, uma contratação interessante mas dificilmente essencial para o clube nessa temporada.

Por fim, no ataque o nome cogitado foi Vagner Love, que, após uma longa negociação, acabou assinando contrato não com o Flamengo, mas sim com o Besiktas, da Turquia. Outra posição que a própria diretoria já via como carente em virtude da suspensão de Guerrero e que parece mais carente ainda a cada vez que Vizeu tenta cabecear uma bola com a orelha, seria uma maneira de garantir um toque de experiência num setor ofensivo que claramente tende a ser dominado pelos jovens, com ascensão de Paquetá e Vinícius Junior. Os valores pedidos pelo clube turco, no entanto, foram proibitivos e agora a busca por um camisa 9 está direcionada a nomes como Henrique Dourado.

Ou seja, num saldo geral, a postura do Flamengo quanto a reforços, ainda que sem sucesso, mostra ao menos um certo nível de coerência do clube no que diz respeito a buscar atletas que possam ser realmente titulares da equipe, e não apenas compor elenco e tirar oportunidades dos jogadores da base – exceto talvez no caso de Walace, que provavelmente ainda precisaria disputar posição. Também fica claro o compromisso de atuar dentro das restrições financeiras do departamento de futebol, já que todos nós sabemos que em outras épocas, diante da pressão atual e num ano de Libertadores, o clube teria, sim, mandado o bom senso econômico tão pra longe quanto o Rafael Vaz tentando um lançamento de 50 metros.

Ainda assim, e por mais que as revelações da base possam se mostrar capazes de suprir essas lacunas durante o ano, a dificuldade para preencher posições cuja carência já havia ficado clara na temporada passada, como a zaga, a lateral e um atacante mais finalizar, não deixa de ser preocupante, assim como a incapacidade dos responsáveis pelo futebol do Flamengo de encontrar outras opções após o fracasso das tentativas iniciais – até você quando leva sua namorada pra almoçar domingo sabe que a vida é muito mais tranquila se tiver ao menos uma segunda opção de restaurante.

No fim das contas, a atuação do Flamengo no mercado nesse começo de temporada pode ser vista 50% como uma falha e 50% como uma aposta calculada. Se formos eliminados de alguma competição por um erro do Pará, se Vizeu perder gols que Josiel e Negreiros fariam, as arquibancadas vão criticar a diretoria burra que não aprendeu com os erros da temporada passada. Se Thuler se mostrar um gênio da zaga, se Renê aprender a cruzar, se Marlos Moreno não for apenas um jogador como nome de personagem da Marvel, mas sim um craque promissor, todos vão elogiar a o departamento de futebol que só faz contratações cirúrgicas e sabe dar espaço pros jogadores da base. O Flamengo apostou. Agora nos resta torcer para que tenha apostado certo.

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